Fui ativista estudantil (1967/68). Militante clandestino (1969/70). Preso político (1970/71). Tenho travado o bom combate, lutando por um Brasil mais justo, defendendo os direitos humanos, combatendo o autoritarismo.

Sou jornalista desde 1972. Crítico de música e de cinema. Cronista. Poeta. Escritor. Blogueiro.

Tentei e não consegui eleger-me vereador em São Paulo. Mas, orgulho-me de ter feito uma campanha fiel aos objetivos nortearam toda a minha vida adulta: a construção de uma sociedade igualitária e livre, tendo como prioridades máximas o bem comum e a felicidade dos seres humanos.

Em que a exploração do homem pelo homem seja substituída pela cooperação solidária do homem com os outros homens. Em que sejam finalmente concretizados os ideais mais generosos e nobres que a humanidade vem acalentando através dos tempos: justiça social e liberdade.

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sexta-feira, 3 de março de 2017

COMO DETERMOS O FASCISTA BOLSONARO? COMBATENDO-O SEM TRÉGUA!

Por Lungaretti
Às vezes me sinto como a Cassandra troiana, amaldiçoada com a indiferença do seu povo aos alertas que lançava, tão corretos quanto inúteis em termos práticos.

No segundo semestre de 2014, p. ex., eu já tinha percepção clara de que o novo mandato presidencial transcorreria sob aguda recessão. Tudo fiz para abrir os olhos da companheirada, no sentido de que Dilma Rousseff não tinha competência para administrar uma crise dessas e seu fracasso anunciado seria catastrófico para a esquerda brasileira. 

Vi como preferível, primeiramente, a candidatura de Marina Silva, pois, com ela no poder, a responsabilidade pelo desastre econômico ficaria ao menos diluída. 

Depois que Marina foi destruída pela mais torpe campanha de calúnias e falácias já vista na política brasileira, incentivei o Volta Lula!, pois ele, com todos os defeitos, ainda seria capaz de amenizar um pouco a devastação que se prenunciava. Mas, os petistas vacilaram miseravelmente, encaminhando-nos para a perda total.

Mal assumiu, Dilma jogou as promessas de campanha no lixo e empossou o neoliberal Joaquim Levy como ministro da Fazenda. Imediatamente lembrei que estava repetindo o erro de João Goulart, cujas tentativas de adotar a política econômica do inimigo sempre foram inviabilizadas pelo fogo amigo do Brizola e do PCB, lançando o país na confusão e preparando o terreno para a intervenção militar. Dito e feito, Dilma também acabaria sendo derrubada, desta vez não pelos tanques, mas por um peteleco parlamentar.

Tão logo a Câmara Federal aprovou a abertura do processo de impeachment, escrevi que a batalha no Congresso já estava perdida e o único contra-ataque com alguma possibilidade de êxito seria sua imediata renúncia, seguida pelo lançamento de uma nova campanha por diretas-já, unindo toda a esquerda. Mas, Dilma, sempre berrando que não iria cair, marchou de derrota em derrota até o mais amargo fim.
Fiz esta introdução porque novamente há um cenário horroroso se desenhando no horizonte e a esquerda está fazendo tudo errado mais uma vez.

Ao invés de depurar-se e reciclar-se como é inescapável após fiascos tão acachapantes como o de 2016, continua apostando no populismo, ao lançar uma campanha sebastianista pela candidatura de Lula que é simplesmente asnática: a direita, por via judicial, o fulminará quando bem entender.

E não percebe que, se o confronto for entre o populismo decadente do Lula e o populismo ascendente de Jair Bolsonaro, afinado com o espírito da era Trump, é o segundo que prevalecerá.

As lambanças do PT já levaram a direita ao poder. Se persistirem, acabarão conduzindo um fascista explícito ao Palácio do Planalto, enquanto quatro centenas de signatários de um manifesto altamente inoportuno ficarão tentando justificar sua estreiteza de visão política.

Eis os trechos principais de um artigo do Vladimir Safatle que dá uma boa noção do inimigo que temos pela frente:
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UM FASCISTA MORA AO LADO
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Por Vladimir Safatle
"...poderíamos dizer que todo fascismo tem ao menos três características fundamentais.

Primeiro, ele é um culto explícito da ordem baseada na violência de Estado e em práticas autoritárias de governo. 

Segundo, ele permite a circulação desimpedida do desprezo social por grupos vulneráveis e fragilizados. O ocupante desses grupos pode variar de acordo com situações históricas específicas. Já foram os judeus, mas podem também ser os homossexuais, os árabes, os índios, entre tantos outros. 

Por fim, ele procura constituir coesão social através de um uso paranoico do nacionalismo, da defesa da fronteira, do território e da identidade a eixo fundamental do embate político.

Neste sentido, não seria difícil demonstrar todo o fascismo ordinário do sr. Bolsonaro. Sua adesão à ditadura militar é notória, a ponto de saudar e prestar homenagens a torturadores. Não deixa de ser sintomático que pessoas capazes de se dizerem profundamente indignadas contra a corrupção reinante afirmem votar em alguém que louva um regime criminoso e corrupto como a ditadura militar brasileira (vide casos Capemi, Coroa-Brastel, Paulipetro, Jari, entre tantos outros).

Bem, quem começa tirando selfie com a Polícia Militar em manifestações só poderia terminar abraçando toda forma de violência de Estado.

Por outro lado, sua luta incansável contra a constituição de políticas de direito, reparação e conscientização da violência contra grupos vulneráveis expressa o desprezo que parte da população brasileira sempre cultivou, mas que agora se sente autorizada a expressar.

Por fim, o primarismo de um nacionalismo que expressa o simples culto do direito secular de mando, algo bem expresso no slogan devolva o meu país, fecha o círculo.

Ora, o fato significativo é que a maioria da classe média brasileira, com sua semi-formação característica, assumiu de forma explícita uma perspectiva simplesmente fascista.

Ela operou um desrecalque, já que até então se permitia representar por candidatos conservadores mais tradicionais. Essa escolha é resultado de uma reação à desordem e à abertura produzida pela revolta de 2013.

Todo evento real produz um sujeito reativo, sujeito que, diante das possibilidades abertas por processos impredicados, procura o retorno de alguma forma de ordem segura capaz de colocar todos nos seus devidos lugares. Nesse contexto, a última coisa a fazer é acreditar que devamos dialogar com tal setor da população.
Faz parte de um iluminismo pueril a crença de que o outro não pensa como eu porque ele não compreendeu bem a cadeia de argumentos. Logo, se eu explicar de forma pausada e lenta, você acabará concordando comigo.

Bem, nada mais equivocado. O que nos diferencia é a adesão a forma de vida radicalmente diferentes. Quem quer um fascista não fez essa escolha porque compreendeu mal a cadeia de argumentos. Ele o escolheu porque adere a formas de vida e afetos típicos desse horizonte político. Não é argumentando que se modifica algo, mas desativando os afetos que sustentam tais escolhas.

De toda forma, há de se nomear claramente o caminho que parte significativa dos eleitores tomou. Essa radicalização não desaparecerá, mas é embalada pelo espírito do tempo e suas regressões. Na verdade, ela se aprofundará. Contra ela, só existe o combate sem trégua"

O POLITICAMENTE CORRETO É UM AUTÊNTICO PÉ NO SACO!

terça-feira, 16 de setembro de 2014

A ESQUERDA SAZONAL E SUAS CEREJAS RETÓRICAS

Finalmente alguém encontrou a melhor definição para o PT dos dias de hoje: esquerda sazonal.

Parabéns ao filósofo Vladimir Safatle! Ele conseguiu dar o tratamento adequado ao fenômeno que, talvez por conta da profunda decepção que causa nos que um dia compartilhamos o sonho e depois o vimos transformar-se em pesadelo, invariavelmente nos faz resvalar para as diatribes.

O humor, contudo, convence mais do que o rancor, ainda que justificado.

Abaixo, em vermelho, está  a biopsia que Safatle faz (o texto integral pode ser acessado aqui) do partido que se propunha a mudar o Brasil mas hoje, mudado pelo Brasil, só empunha as velhas bandeiras no período eleitoral, não mais para libertar os explorados, mas sim para os iludir e, com isto, conquistar mandatos que continuarão não indo à raiz dos nossos problemas, qual seja a velha, sempre presente e por enquanto inabalável exploração do homem pelo homem.

Depois, tais bandeiras são devolvidas ao depósito das velharias, até que surja nova necessidade de brandi-las demagogicamente, sempre com o objetivo único da perpetuação no poder.

"De quatro em quatro anos, ocorre no Brasil um fenômeno interessante. Ele poderia ser chamado de: 'estação das cerejas vermelhas'.

Por volta no mês de agosto dos períodos pré-eleição presidencial, aparecem cerejas muito vermelhas, quase proto-revolucionárias, vindas de árvores governistas que pareciam há muito dar apenas os conhecidos frutos amargos da austeridade.

Então, quase que em um passe de mágica, começamos a ouvir na campanha eleitoral discursos com sabores proibidos de luta de classe, diatribes contra o sistema financeiro, promessas de investimento massivo em educação pública.

Mutações incríveis ocorrem, como governos que permitiram os mais fantásticos lucros bancários da história, alimentando o sistema financeiro com títulos da dívida pública e juros exorbitantes, apresentarem os bancos como inimigos do povo.

Tudo muito bonito.

Infelizmente, a estação das cerejas vermelhas termina de forma abrupta no dia 27 de outubro, logo após a consagração do segundo turno das eleições presidenciais. Então as árvores voltam a dar os frutos cinzas que todos conhecem.(Vladimir Safatle)

terça-feira, 2 de abril de 2013

DOIS TEXTOS IMPERDÍVEIS SOBRE NEOFASCISMO x FUNDAMENTALISMO

Maior teatrólogo brasileiro das últimas décadas, José Celso Martinez Correa tem também muito faro político, como o atesta o artigo Feliciano é a ponta de lança de um golpe de estado, que disponibilizou no seu blogue (vide aqui).

Meu único reparo é quanto a este trecho:
"Todos que trabalham com a arte ou mesmo com seres humanos e os que se sentem mortais, humanos, estão putos com esta situação na Comissão dos Direitos Humanos que anuncia coisa pior: o Congresso agora vai votar por uma proposta-lei dos evangélicos Fundamentalistas pra derrubar o Estado laico brasileiro".
Refere-se a uma proposta do deputado evangélico João Campos, no sentido de estender às organizações religiosas a prerrogativa de contestar a constitucionalidade de leis no Supremo Tribunal Federal. Atualmente, quem pode propor a chamada Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) são o presidente da República; as Mesas do Senado, Câmara e Assembleias Legislativas; os governadores; o procurador-geral da República; a OAB; os partidos com representação no Congresso; confederações sindicais e entidades de classe de âmbito nacional.

Evidentemente, entre tantos proponentes possíveis, os pastores ensandecidos sempre encontrarão algum disposto a assumir a paternidade de suas contestações à modernidade, em nome dos valores de dois milênios atrás.


Ou seja, mesmo que se abra esta porta para o passado brigar com o presente e o futuro (o projeto ainda tem de ser aprovado por duas comissões do Congresso e em duas votações no plenário), ruim mesmo seria o precedente, não o efeito concreto. Até porque tais bizarrias acabariam sendo inevitavelmente fulminadas pelo STF.

Quanto ao restante da catalinária do Zé Celso, aplaudo e subscrevo:

"A regressão aos estados fundamentalistas tem sido a causa de inúmeras guerras e de situações estupradoras monstruosas dos direitos humanos em todo Planeta Terra.
Precisamos todos nos movimentar urgentemente (...) para não sermos condenados a desumanidade das ditaduras das religiões fundamentalistas.

Este Infeliz Feliciano é a ponta de lança da ameaça de um golpe de estado tão nefasto quanto o de 1964.

Além dos artistas, nós todos, mortais humanos, que assim se aceitam e que não temos versão única da vida, da 'verdade', nem somos proprietários dela, que amamos a liberdade temos de criar juntos meios para que esta regressão nefasta de aprisionamento da vida aqui no Brasil não aconteça.

É trabalho não somente de artista, mas de todos os humanos que tem amor ao poder de nossa condição humana livre de tutela da boçalidade fundamentalista de uma verdade única".
O ESPAÇO PARA UMA AGREMIAÇÃO TRIPLAMENTE
CONSERVADORA NA POLÍTICA BRASILEIRA

Quanto ao filósofo Vladimir Safatle, cumpre admiravelmente sua missão de dimensionar este novo fenômeno: a emergência de um populismo de extrema-direita encabeçado pelos mercadores do tempo e tendo como exército os milhões de coitadezas mesmerizados por sua lavagem cerebral.

Desde a última campanha eleitoral, quando a Igreja Universal quase catapultou Celso Russomanno para o 2º turno em São Paulo, venho alertando para tal perigo. Vide, p. ex., a advertência que lancei neste artigo:
"...os  pa$tore$ eletrônico$, que propagam e tornam cada vez mais rentável o culto ao bezerro de ouro, podem se tornar uma força política de primeira grandeza caso se apossem do governo e passem a gerir o orçamento da principal cidade brasileira.

Lembrem-se: Hitler só foi tão longe porque suas futuras vítimas o subestimaram. Começando pelos socialistas que, desatinadamente, atacaram a democracia alemã pela esquerda enquanto os nazistas o faziam pela direita.  

Contando com um exército de zumbis que atuarão como cabos e tarefeiros eleitorais gratuítos, até onde os exploradores da fé poderão chegar? O céu é o limite.

Mas, para a democracia brasileira, o quadro que se delineia é o de um inferno. Deus nos acuda!"
Recomendando a leitura na íntegra do artigo do Safatle, O primeiro embate (vide aqui), destaco os trechos principais:
"Os embates em torno da presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara talvez sejam o primeiro capítulo de um novo eixo na política brasileira.

A maneira aguerrida com que o deputado Marco Feliciano e seus correligionários ocupam espaço em uma comissão criada exatamente para nos defender de pessoas como eles mostra a importância que dão para a possibilidade de bloquear os debates a respeito da modernização dos costumes na sociedade brasileira. Pois, tal como seus congêneres norte-americanos, apoiados pelo mesmo círculo de igrejas pentecostais, eles apostam na transformação dos conflitos sobre costumes na pauta política central. Uma aposta assumida como missão.

Durante os últimos anos, o conservadorismo nacional organizou-se politicamente sob a égide do consórcio PSDB-DEM. Havia, no entanto, um problema de base. O eleitor tucano orgânico é alguém conservador na economia, conservador na política, mas que gosta de se ver como liberal nos costumes. Quando o consórcio tentou absorver a pauta do conservadorismo dos costumes (por meio das campanhas de José Serra), a quantidade de curtos-circuitos foi tão grande que o projeto foi abortado. Mesmo lideranças como FHC se mostraram desconfortáveis nesse cenário.

Porém ficava claro, desde então, que havia espaço para uma agremiação triplamente conservadora na política brasileira. Ela teria como alicerce os setores mais reacionários das igrejas, com suas bases populares, podendo se aliar aos interesses do agronegócio, contrariados pelo discurso ecológico das 'elites liberais'. Tal agremiação irá se formar, cedo ou tarde".

terça-feira, 24 de julho de 2012

JÁ TENHO UM BORDÃO: "VAMOS BOTAR A PM NO MUSEU DA DITADURA!"

De candidatos a vereador espera-se que tenham um pacote de propostas para exibir, contemplando contingentes expressivos de eleitores. Vote em mim e você terá sua creche, ou CEU, ou poste de iluminação, ou...

Se perdem a eleição, as propostas vão pro lixo.

Quando ganham, a possibilidade de cumprir o prometido é, no mínimo, remota. Depende das disponibilidades orçamentárias, da influência que seu partido detenha  y otras cositas más...

Respondendo a um questionário da Folha de S. Paulo, fui obrigado a entrar nessa rinha inglória. Escrevi que: 
  • eu me esforçarei ao máximo para forçar a cobrança da imensa dívida que grandes capitalistas têm com o município (aqueles calotes que, se depender do empenho dos tucanos, virarão o século); e 
  • apresentarei um projeto proibindo homenagens a pessoas envolvidas com ditaduras e/ou atos hediondos, em tudo que depender da administração paulistana.
É óbvio que poderia fazer melhor do que isto, se pretendesse cortejar votos clientelistas. Não é o caso. Ao invés de prometer mundos e fundos para me eleger, ofereço a garantia de que defenderei os interesses dos explorados e dos injustiçados, esforçando-me, ao mesmo tempo, para ser uma pedra bem incômoda no sapato dos poderosos.

Se for suficiente, ótimo. Caso contrário, azar meu. O certo é que vocês não me verão escorregando de skates durante a campanha.

Mas, lendo o artigo do filósofo Vladimir Safatle, Pela extinção da PM, dei-me conta de que, quando a PM paulista executou cidadãos honestos na semana passada, a ficha não me caiu e deixei de relacionar as matanças à recente recomendação da ONU, no sentido de que o Brasil elimine mais este entulho autoritário. 

Lapso imperdoável, pois eu havia sido o primeiro a concordar entusiasticamente com tal proposta, conforme se pode constatar no meu artigo de 04/06/2012, Da ONU para o Brasil: extingam as PM's!!! (ver aqui).

Então eu tenho, sim, uma bandeira impactante para levantar, pouco importando que se trate de um assunto de competência do Estado e não do município. Vale até o dia em que for concretizada e eu a defenderei em qualquer circunstância e cargo que ocupe.

Vou ser o avesso do Paulo Maluf: enquanto ele tinha como bordão  vou botar a Rota na rua!, o meu é vamos botar a PM no museu da ditadura! Quiçá na mesma prateleira do Doi-Codi...

Eis o artigo do Safatle, que, claro, aprovo e recomendo:
 "No final do mês de maio, o Conselho de Direitos Humanos da ONU sugeriu a pura e simples extinção da Polícia Militar no Brasil. Para vários membros do conselho (como Dinamarca, Espanha e Coreia do Sul), estava claro que a própria existência de uma polícia militar era uma aberração só explicável pela dificuldade crônica do Brasil de livrar-se das amarras institucionais produzidas pela ditadura.
No resto do mundo, uma polícia militar é, normalmente, a corporação que exerce a função de polícia no interior das Forças Armadas. Nesse sentido, seu espaço de ação costuma restringir-se às instalações militares, aos prédios públicos e aos seus membros.

Apenas em situações de guerra e exceção, a Polícia Militar pode ampliar o escopo de sua atuação para fora dos quartéis e da segurança de prédios públicos.

No Brasil, principalmente depois da ditadura militar, a Polícia Militar paulatinamente consolidou sua posição de responsável pela completa extensão do policiamento urbano. Com isso, as portas estavam abertas para impor, à política de segurança interna, uma lógica militar.

Assim, quando a sociedade acorda periodicamente e se descobre vítima de violência da polícia em ações de mediação de conflitos sociais (como em Pinheirinho, na cracolândia ou na USP) e em ações triviais de policiamento, de nada adianta pedir melhor 'formação' da Polícia Militar.

Dentro da lógica militar, as ações são plenamente justificadas. O único detalhe é que a população não equivale a um inimigo externo.
Isto talvez explique por que, segundo pesquisa divulgada pelo Ipea, 62% dos entrevistados afirmaram não confiar ou confiar pouco na Polícia Militar. Da mesma forma, 51,5% dos entrevistados afirmaram que as abordagens de PMs são desrespeitosas e inadequadas.
Como se não bastasse, essa Folha mostrou no domingo que, em cinco anos, a Polícia Militar de São Paulo matou nove vezes mais do que toda a polícia norte-americana ('PM de SP mata mais que a polícia dos EUA', 'Cotidiano').
Ou seja, temos uma polícia que mata de maneira assustadora, que age de maneira truculenta e, mesmo assim (ou melhor, por isso mesmo), não é capaz de dar sensação de segurança à maioria da população.

É fato que há aqueles que não querem ouvir falar de extinção da PM por acreditar que a insegurança social pode ser diminuída com manifestações teatrais de força.

São pessoas que não se sentem tocadas com o fato de nossa polícia torturar mais do que se torturava na ditadura militar. Tais pessoas continuarão a aplaudir todas as vezes em que a polícia brandir histericamente seu porrete. Até o dia em que o porrete acertar seus filhos".