Fui ativista estudantil (1967/68). Militante clandestino (1969/70). Preso político (1970/71). Tenho travado o bom combate, lutando por um Brasil mais justo, defendendo os direitos humanos, combatendo o autoritarismo.

Sou jornalista desde 1972. Crítico de música e de cinema. Cronista. Poeta. Escritor. Blogueiro.

Tentei e não consegui eleger-me vereador em São Paulo. Mas, orgulho-me de ter feito uma campanha fiel aos objetivos nortearam toda a minha vida adulta: a construção de uma sociedade igualitária e livre, tendo como prioridades máximas o bem comum e a felicidade dos seres humanos.

Em que a exploração do homem pelo homem seja substituída pela cooperação solidária do homem com os outros homens. Em que sejam finalmente concretizados os ideais mais generosos e nobres que a humanidade vem acalentando através dos tempos: justiça social e liberdade.

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sexta-feira, 4 de março de 2016

FACE AOS ABUSOS DE PODER DOS INJUSTOS, APELO À SOLIDARIEDADE DOS JUSTOS

Conforme relato na segunda metade deste texto, a União tem utilizado todo seu arsenal jurídico para retardar o cumprimento da decisão do ministro da Justiça, que em outubro de 2005 me concedeu indenização retroativa por haver tido minha carreira profissional extremamente prejudicada pela ditadura de 1964/85.

Os leigos podem estranhar a ênfase que a Comissão de Anistia deu ao dano profissional, colocando-o, na fixação das reparações, em plano superior aos transtornos de ordem física, psicológica e moral sofridos pelos resistentes.

Mas, ainda que discutível, o critério tinha lá alguma razão de ser: quase todos que lutamos contra o arbítrio enfrentamos dificuldades imensas em nossas trajetórias profissionais, sujeitos a demissões injustificadas, a uns patrões que não nos empregavam por preconceito ideológico, outros por temerem ser, de alguma forma, prejudicados, etc. 

Assim, um Carlos Heitor Cony, escritor e jornalista consagrado, de repente viu todas as portas se fecharem, exceto uma: só não ficou na rua da amargura porque o direitista Adolpho Bloch lhe estendeu a mão. Ou seja, salvou-o a solidariedade judaica, enquanto lhe faltava a dos que tinham afinidade com seus ideais.

Até o fim da ditadura só consegui trabalhar à margem dos veículos importantes, tendo de atuar em assessorias de imprensa e revistas de cinema e música (nas quais era obrigado a utilizar pseudônimo para não atrair a atenção da censura, e mesmo assim não escapei de um processo desta ordem, que acabou não dando em nada além de muita amolação).

Minha carreira jornalística foi, ainda, comprometida pela má audição, pois as torturas me causaram uma lesão permanente no tímpano do ouvido direito. Impossibilitado de fazer entrevistas ao vivo, jamais pude trabalhar nas tevês e só atuei em rádio durante um semestre,  na retaguarda.

Os valores que me foram atribuídos pela Comissão de Anistia bastariam para minha subsistência e para fazer frente aos compromissos com meus vários dependentes, desde que recebesse tudo que a portaria ministerial determinou: pensão vitalícia e indenização retroativa.

Quando a segunda se tornou uma história sem fim, passei a me defrontar com sucessivos apuros financeiros. Minha atuação no Caso Battisti acabou com qualquer chance que ainda pudesse ter de voltar a atuar na grande imprensa (preconceitos relativos à idade também pesam contra mim). Mas, confiante em que o desfecho do mandado de segurança não tardaria, fui sobrevivendo, do jeito que deu. Algumas pequenas heranças me ajudaram a manter-me à tona.

Mas, como o processo se alonga muito além do plausível e aceitável, é cada vez maior minha dificuldade para continuar administrando as situações críticas.

Então, sou obrigado a, como o saudoso Joe Cocker, pedir a little help from my friends (e também dos que, mesmo não sendo meus amigos ou companheiros de ideais, ainda conservaram o espírito de Justiça e a capacidade de indignar-se com os abusos dos poderosos). Eis algumas possibilidades:
  • publicarem e/ou repassarem esta mensagem, pois assim aumentará a chance de chegar às mãos de quem possa solucionar o problema;
  • alertarem associações e cidadãos defensores dos direitos humanos;
  • enviarem mensagens ao novo titular da AGU, José Eduardo Cardozo (Advocacia-Geral da União -- Setor de Indústrias Gráficas (SIG) -- Quadra 06 -- Lote 800 -- CEP 70610-460 -- Brasília/DF), na esperança de que, também neste caso, eles coloque o dever funcional acima das considerações de outra ordem; e
  • lembrarem/indicarem meu nome a quem estiver precisando de serviços jornalísticos e de assessoria de imprensa. Tenho longa experiência como repórter, redator, editor, editorialista, articulista, crítico e administrador de crises.  
Toda ajuda será muito bem-vinda. Iniciei minha militância num momento em que, enfrentando um inimigo bestial, tínhamos bem clara a necessidade de unirmo-nos, independentemente de linhas, facções, partidos e tendências, e até contra as posições mesquinhas de certos dirigentes. 

Quando conseguimos reencontrar este espírito, conquistamos uma vitória épica, salvando o companheiro Cesare Battisti das garras do Berlusconi.  Temos de continuar buscando a união e solidariedade das forças verdadeiramente de esquerda, pois ela será fundamental na travessia dos tempos duros que vêm por aí.

EU, CELSO LUNGARETTI, 65 ANOS, ANISTIADO POLÍTICO, INJUSTIÇADO EM PLENA DEMOCRACIA!

Depondo numa auditoria, após a fase de torturas...
O intertítulo pode parecer bombástico, mas tem sua razão de ser. Pois é verdadeira aberração um mandado de segurança --instrumento criado para o cidadão obter o reconhecimento de um direito líquido e certo que esteja sendo escamoteado pela autoridade pública--, cujo trâmite, por sua própria natureza, deveria ser ágil, estar arrastando-se por mais de nove anos, como acontece com o meu.

Para piorar, o julgamento do mérito da questão foi realizado em 23 de fevereiro de 2011, sem que até agora a decisão tenha sido cumprida, pois desde então a Advocacia Geral da União recorre a uma medida protelatória após outra, sobre aspectos periféricos e secundários, como ser ou não mandado de segurança o instrumento jurídico adequado num caso desses (a corte decidiu que sim, depois de uma eternidade!). Tudo isso pode ser facilmente constatado no site do Superior Tribunal de Justiça; meu processo é o de nº 0022638-94.2007.3.00.0000.

Assim, de nada adiantou eu haver vencido o julgamento de mérito por 8x0, nem haver derrubado dois embargos de declaração por 7x0 e 8x0. Derrotada no STJ, a AGU conseguiu fazer com que o meu processo fosse colocado na dependência do resultado de outro semelhante, relativo a vários anistiados, que tramita desde 2007 no Supremo Tribunal Federal, no qual sua argumentação é a mesmíssima que o STJ rechaçou por maioria absoluta no meu caso.
...e dias depois de ser preso.

O pomo da discórdia é o pagamento da indenização retroativa concedida pela União a anistiados políticos que tiveram suas carreiras profissionais gravemente prejudicadas pela ditadura de 1964/85. Pela lei e normas da Comissão de Anista do Ministério da Justiça, tal indenização deveria ser paga em até 60 dias após a publicação da decisão do ministro da Justiça referente àquele anistiado.

Depois de esperar mais de um ano que a quantia fosse depositada ou que a União prestasse algum esclarecimento a respeito, dei entrada num mandado de segurança para exigir que a lei fosse cumprida.

Duas ou três semanas depois, todos os anistiados recebemos da União, para devolvermos assinado, um documento pelo qual voluntariamente abdicaríamos do recebimento imediato, concordando com o parcelamento do retroativo em prestações mensais que iriam até dezembro de 2014, ou seja, quase sete anos depois.

E é aqui que a coisa piora mais ainda: se a União cumpriu sua promessa de zerar até dezembro de 2014 o débito que tinha com os milhares de aderentes ao plano de pagamento parcelado e utiliza todo seu arsenal jurídico para retardar o pagamento a uns poucos não aderentes, estabelece-se uma desigualdade injusta e iníqua no universo dos anistiados

Utilizar medidas protelatórias para retardar o cumprimento de decisões judiciais, aproveitando-se da lerdeza da Justiça brasileira, já se constituía num flagrante abuso de poder, dada a disparidade de forças existente entre simples cidadãos e a poderosa máquina governamental. E, a partir de janeiro de 2015, a pirraça da AGU terá se tornado simplesmente discriminatória, ao negar a alguns o que tantos e tantos iguais já receberam.

A injustiça é clamorosa e gritante. A retaliação contra quem não se curvou aos desejos da Corte, claríssima. 

Quanto ao fato de um dos injustiçados ser notório opositor de esquerda aos últimos governos, pode ser ou não coincidência; afinal, entre 2002 e 2005, eu encontrara idênticas dificuldades para fazer com que a Comissão de Anistia respeitasse suas próprias normas de priorização processual, tendo de recorrer a um sem-número de entidades e instituições até conseguir que meu direito fosse, daquela vez, respeitado. Mal sabia que outra via crucis me aguardava adiante.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

CUSTOU-NOS MUITA LUTA TERMOS LIBERDADE DE EXPRESSÃO. VAMOS PERMITIR QUE QUALQUER FACEBOOK A PISOTEIE?

Mensagem do Facebook lembra a tesoura da ditadura 
confesso que estava passando batido pelo problema da censura no Facebook até que ela me atingiu, no último domingo, 26. 

Como sempre faço, tentei comunicar que publicara no meu blogue um novo artigo. Mas, fui impedido: 
"essa mensagem possui conteúdo bloqueado: Sua mensagem não pode ser enviada pois ela tem conteúdo que outras pessoas no Facebook denunciaram como abusivo".
Como abominava a censura da ditadura militar --cheguei a responder a um processo estapafúrdio no Fórum João Mendes, que não deu em nada mas obrigou-me a comparecer umas quatro vezes, convocado para as 13h e tendo de ficar mofando naquele ambiente desagradável cerca de quatro horas até começar a audiência que me dizia respeito-- desde a redemocratização denuncio veementemente qualquer veto, boicote ou emasculação dos meus textos. 

Foi o que imediatamente fiz. Inclusive, tentei postar no próprio Facebook a minha catilinária contra a censura do Facebook... e consegui. Aí, repeti a tentativa de divulgar o artigo político e constatei que continuava embargado. Ou seja, tratava-se de algum tipo de gatilho automático, que dispara apenas quando existe tal ou qual palavra no texto. 

Pesquisando no Google, constatei que, durante a onda de manifestações de rua contra a Copa do Mundo, a meninada se queixava de que acontecia exatamente o mesmo quando suas mensagens citavam "Exército", "Forças Armadas", "Guarda Nacional".  


Já o amigo jornalista Rui Martins levantou a possibilidade de que a censura tivesse ocorrido a partir de um uso desvirtuado do ícone no qual os usuários do Facebook podem clicar para denunciarem conteúdo pornográfico.


Como a empresa não dá satisfações, somos obrigados a ficar no terreno das hipóteses.  E, claro, indagando-nos se uma companhia ponto.com dos Estados Unidos tem o direito de, atuando em nosso país, ignorar o que reza a Constituição da República Federativa do Brasil:

"Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei" (art. 5, § 2º)
"É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (art. 5, § 9º)
"A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição" (art. 220)
"É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística" (art. 220, § 2º)
E não age às escondidas. Já nos padrões de sua comunidade, deixou claro que faria exatamente o que está fazendo:

"As pessoas usam o Facebook para compartilhar suas experiências e conscientizar os outros sobre assuntos que consideram importantes. Isso significa que você pode encontrar opiniões diferentes das suas, o que acreditamos que possa gerar conversas importantes sobre temas complexos. No entanto, para equilibrar as necessidades, a segurança e os interesses de uma comunidade diversificada, temos que remover determinados tipos de conteúdos controversos ou limitar o público que os visualiza [o grifo é meu]".
Esta postura está coerente com o enfoque jurídico dos EUA. Lá, apenas os governos federal, estaduais e municipais são obrigados a respeitar escrupulosamente a liberdade de expressão. Organizações particulares podem, a bel prazer, impugnarem conteúdos  que a empresa não deseje veicular.

É isto que queremos para o Brasil? Caso contrário, por que permitimos que brasileiros estejam sendo submetidos a tais restrições?


domingo, 26 de julho de 2015

SAIBA QUE MEUS ARTIGOS ESTÃO SOB CENSURA PRÉVIA NO FACEBOOK E CONHEÇA O 1º A SER BLOQUEADO

OS TORQUEMADAS QUEREM MEUS ARTIGOS FORA DO FACEBOOK

Não sou de ficar anunciando de 10 em 10 minutos os meus artigos no Facebook e no Twitter, como vejo muitos fazerem. Posto-os apenas uma vez, pois detesto esses artifícios típicos da propaganda, "quanto mais aparecerem, maior a chance de serem notados", etc.

Mesmo assim, há internautas com índole totalitária tentando fazer com que não apareçam sequer uma vez. Ao anunciar meu artigo deste domingo (26), fui impedido: 
"essa mensagem possui conteúdo bloqueado: Sua mensagem não pode ser enviada pois ela tem conteúdo que outras pessoas no Facebook denunciaram como abusivo".
Os mesmos que vira-e-mexe tiram o meu blogue do ar, fazendo-me perder uns 15 minutos para reativá-lo, agora empenham-se em excluí-lo do Facebook. Direitistas ou governistas dá no mesmo, têm alma de censores.

E do tipo fanáticos, como os do Santo Ofício, não meros tarefeiros na linha da dª Solange da ditadura militar.

Quanto ao Facebook, é moderninho por fora e medieval por dentro. Quer dizer que qualquer ação concertada de inimigos políticos é suficiente para tirar-se um articulista do ar, sem comunicação prévia nem chance nenhuma para apresentar defesa?!

Torquemada vive.

Obs. Por curiosidade, tentei divulgar esta denúncia e o Facebook a aceitou. Tentei novamente anunciar o artigo político e constatei que continua embargado. Ou seja, trata-se de um bloqueio automático, que é ativado quando existe tal ou qual palavra no texto. Qualquer semelhança com a burrice da censura dos milicos não é mera coincidência.

SE PLANTAR MAIS DO MESMO, DILMA COLHERÁ MAIS DO MESMO.

Continuam viajando na maionese Dilma Rousseff e a ala chapa-branca do PT (aquela que não dá a mínima para as bandeiras históricas do partido e adere até ao neoliberalismo quando isto lhe convém).

A presidenta vinha evitando aparições na TV com dia e hora marcados, para que os adversários não convocassem humilhantes panelaços. Mudou de idéia e dará a luz de sua (des)graça no próximo programa do PT, que vai ao ar no dia 6, em rede nacional. Alguém dúvida de que os opositores articularão, nas redes sociais, o panelaço mais barulhento de quantos houve até agora?

Ela decidiu também que procurará cativar os governadores e líderes da oposição, no sentido de que abracem a causa da governabilidade e orientem suas bancadas a não abrirem mais rombos na canoa furada do ajuste do Levy. 

Haverá muita discurseira engana-trouxas e, noves fora, os parlamentares vão continuar defendendo apenas seus interesses, não os do povo ou do País. Dilma dá a impressão de que ainda crê em Papai Noel e coelhinho da Páscoa...

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, um dos alvos da ofensiva dilmista e lulista, já disse que "o momento não é para a busca de aproximações com o governo, mas sim com o povo". Raposa velha não atira boias para inimigo que está afundando.

Enfim, o PT continua acreditando que atingiu seu pior momento em 35 anos de existência por causa da superexposição dos escândalos de corrupção na grande mídia (adversa como sempre!), de erros na forma de comunicar-se e de não haver sido suficientemente persuasivo na cooptação dos rivais. 

Enquanto insistir na auto-ilusão, seguirá em direção ao abismo. A direita golpista, começando pelo Reinaldo Azevedo, exultou com a notícia de que a Dilma sairá da sua reclusão para receber mais tortas na cara. Com sua teimosia em considerar correto e imutável tudo que fez até agora, ela não para de levantar bolas para o time adversário marcar pontos.

Vou repetir mais uma vez, talvez alguém a bordo do Titanic finalmente me escute: o iceberg que afundará o governo atende pelo nome de recessão. E recessão é o pseudônimo do Joaquim Levy. Enquanto o cidadão comum sentir-se empobrecendo dia a dia, rejeitará Dilma e o PT na mesmíssima proporção. 

Então, não adianta querer sair do buraco com mais do mesmo, pois o resultado será... mais da mesma rejeição estratosférica atual. 

Para salvar-se, Dilma terá de devolver o Levy à sua insignificância, anunciar uma guinada de 180º na política econômica e tentar reconquistar o apoio popular. 

Se depender dos banqueiros, dos ruralistas, dos grandes capitalistas em geral, das parlamentares, etc., ela não iniciará 2016 no Palácio do Planalto. Se cair nos braços do povo (como o Lula já recomendou), talvez escape da degola.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

"PAI, APROXIMA DE MIM ESSE CÁLICE!"

Ele já aceitou servir como exemplo de bom menino
Creio ter escrito alguns dos textos mais compassivos (vide aquiaqui e aqui) sobre o que Geraldo Vandré se tornou após haver pactuado com a ditadura militar para poder voltar ao Brasil "sem ter na chegada/ que morrer, amada,/ ou de amor, matar", como antevia em sua pungente "Canção primeira". 

Não tenho dúvidas de que sofreu lavagem cerebral quando esteve internado numa clínica psiquiátrica sob a vigilância de agentes da repressão, impedido até de falar com outros pacientes, entre 14 de julho e 11 de setembro de 1973.

Mas, de alguma forma ele contribuiu para sua desgraça: foi ao não suportar a barra do exílio e assumir o risco do regresso, mesmo conhecendo muito bem o inferno no qual desembarcaria. É isto, e só isto, que lhe recrimino. Com relação a tudo que se passou depois, ele tem minha compreensão, valha o que valer.

Foi um episódio bem na linha do que Paulo Francis alertava sobre os artistas: por mais que os admirássemos por sua arte, jamais deveríamos levá-los muito a sério quando se manifestassem sobre outros assuntos ou se aventurassem em outros projetos (principalmente os revolucionários).

Eu não levava muito a sério aquele Chico Buarque que, no olho do furacão dos anos de chumbo, lançava músicas inofensivas e nada tinha a declarar quando a direita enchia sua bola, erigindo-o em bom exemplo enquanto tudo fazia para denegrir os músicos engajados. 

Em 1969 caiu-lhe a ficha e ele próprio reconheceu que o Chico de 1967/68 não merecia mesmo ser levado a sério.

A censura deste disco era ruim. A das biografias é boa?
Fez, então, sua veemente autocrítica: "Agora falando sério/ Eu queria não cantar/ A cantiga bonita/ Que se acredita/ Que o mal espanta/ Dou um chute no lirismo/ Um pega no cachorro/ E um tiro no sabiá/ Dou um fora no violino/ Faço a mala e corro/ Pra não ver a banda passar/// Agora falando sério/ Eu queria não mentir/ Não queria enganar/ Driblar, iludir/ Tanto desencanto...".

Por admirarmos demais a grande arte que ele produziu a partir de então e até o fim da ditadura, passamos uma borracha na sua vacilada anterior e seguimos em frente. A Geraldo Vandré e a Chico Buarque devemos ser imensamente gratos por terem composto as duas músicas mais emblemáticas do repúdio à ditadura: "Caminhando" e "Apesar de você". Não dá para exigirmos que o criador esteja sempre à altura das criações.

Mas, o Chico não deveria exagerar. É simplesmente estarrecedor vermos um dos artistas outrora mais censurados tornar-se um tardio apologista da censura, defendendo a aberração antidemocrática de que a liberdade de expressão deva ser cancelada em benefício de figuras públicas que não querem ver expostos os aspectos desagradáveis de suas biografias. Só falta ele agora cantar  Pai, aproxima de mim esse cálice!...

Paulo Francis certamente daria um de seus característicos sorrisos sarcásticos se lesse a declaração do Chico à Folha de S. Paulo desta 6ª feira, 18 (talvez acrescentando um previsível  como queríamos demonstrar): 
"Posso não estar muito bem informado sobre as leis e posso ter me precipitado, mas continuo achando que o cidadão tem o direito de não querer ser biografado, como tem o direito de não querer ser fotografado ou filmado".
Ora, o  cidadão  com o qual ele se preocupa e cujo direito quer ver priorizado não é um cidadão qualquer, mas sim uma celebridade. Quem escreve as biografias dos coitadezas anônimos?

E quanto ao direito do cidadão comum, de ser informado sobre o que realmente são e fazem aqueles que ganham rios de dinheiro por terem os holofotes da mídia voltados em sua direção, onde é que fica? 

Se o Chico sempre consentiu em que as gravadoras e editoras buscassem de todas as formas maximizar os espaços a ele dedicados pelos veículos escritos e eletrônicos, concedendo obedientemente as entrevistas que marcavam e posando pacientemente para as fotos que recomendavam, o que nos está pedindo é isto: que só levemos em conta o  retrato em branco e preto  que ele e seu staff querem projetar. Que nos atenhamos à imagem manipulada que os profissionais de comunicação forjam, expurgando tudo que é inconveniente para os objetivos comerciais (coincidentemente, o mesmo que incomoda os egos superinflados dos artistas). 

Qualquer tentativa de furar tal bloqueio deverá ser encarada como invasão da privacidade. Ou, verbalizando o que realmente sentem tais pavões mas não têm coragem de proclamar, como um  crime de lesa-majestade.

Tendo o Chico feito uma autocrítica tão contundente por suas omissões em 1967/1968, aguardo ansioso a que fará por suas falações de 2013. Isto se ainda lhe restar humildade para tanto.

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domingo, 13 de outubro de 2013

O USO DO CACHIMBO HÁ MUITO ENTORTA A BOCA DO ROBERTO CARLOS

RC surfou na onda da rebeldia comportamental...
O debate sobre o direito pleiteado pelos figurões, de poderem impugnar biografias não autorizadas contendo revelações desagradáveis a seu respeito, me fez lembrar de um episódio ocorrido quando eu trabalhava numa editora de publicações musicais, no início dos '80.

Uma entrevista exclusiva com Roberto Carlos era o grande sonho da Imprima Comunicação Editorial. E ele finalmente concordou em concedê-la, com a condição de que não fosse eu o entrevistador.

O motivo do veto foi eu ter cogitado, num longo texto dedicado à sua trajetória, a hipótese de que o problema na perna (ele manquitola) tivesse influenciado sua maneira de ser como artista.

Em seus primórdios, RC se enturmou com uma patota de roqueiros brigões da Tijuca (RJ), mas, por ser franzino e se movimentar com dificuldade, não deveria fazer grande figura nos arranca-rabos, se é que deles participava. Isto, contudo, não afetou a sua aceitação no grupo.

Supus que tal se devesse ao jogo de cintura, à capacidade de se fazer estimar por aqueles que costumeiramente respeitavam apenas os que lhes eram iguais. Resumindo: por lhe faltar força física, RC deveria ter desenvolvido astúcia.
...e se tornou  caretão  quando seu público envelheceu.

E teci um paralelo com sua pouca fidelidade aos valores inconformistas da Jovem Guarda. No momento certo, ele deixou de lado a rebeldia comportamental e, acompanhando o envelhecimento do seu público, tornou-se um melífluo compositor e intérprete de músicas românticas (fui tão comedido que nem sequer as rotulei de  xaroposas, como mereciam...).

Erasmo Carlos e Tim Maia continuaram intrinsecamente rebeldes porque a rebeldia estava em seus corações. RC deve ter ouvido a voz da razão, que lhe aconselhava uma guinada conservadora se quisesse continuar quebrando recordes de vendagem de discos.

Não fui, em momento nenhum, indelicado com o RC nem devassei sua intimidade. Apenas coloquei no papel uma interpretação possível dos rumos que deu à sua carreira, baseado em informações públicas e notórias. 

Foi o suficiente para ele me colocar no seu index pessoal e, abusando do poder de fogo que tinha, determinar à editora quem o poderia ou não entrevistar. 

Incoerência: um ex-censurado querendo ser censor.
Sem medo de errar, afirmo: é isto que ele e os outros pavões estão querendo atualmente. São figuras públicas, ganharam fortunas graças à exposição incessante de praticamente todos os detalhes de suas vidas, mas agora reivindicam o direito de expurgar a parte dessas informações que, por um outro motivo, incomoda seus superinflados egos.

Atentam, sim, contra a liberdade de expressão. Têm, sim, de receber um sonoro não! da Justiça. Ou estaremos consentindo em que nossa democracia estabeleça distinções entre os iguais e os  mais iguais

É verdade que isto já ocorre na prática, mas passarmos recibo, estuprando a Constituição, seria dose cavalar. Vamos pelo menos manter as aparências, senhores me(r)dalhões!

Por último, não pode passar em branco a postura de Caetano Veloso, artista que antes alvejava com seus sarcasmos a  geleia geral brasileira  e agora é o primeiro a tentar torná-la ainda mais gelatinosa. Também envelheceu mal e tem ajudado a alavancar as piores causas, como o fracassado lobby dos discípulos de Ali Kamel contra as cotas raciais.
POSTS RECENTES DO BLOGUE NÁUFRAGO DA UTOPIA (clique p/ abrir): ESCRITOR MOSTROU O BRASIL REAL: FEZ O QUE A ESQUERDA COOPTADA NÃO FAZ MAIS /// JUSTIÇA FULMINA A NOVA FALÁCIA DO GOVERNO ALCKMIN /// ASSISTA À VERSÃO ORIGINAL DE "1900", COM UMA HORA A MAIS /// EFEITO CONTRÁRIO: KÁTIA ABREU ENCHE A BOLA DA MARINA E ESVAZIA A DA DILMA /// TRIBUTO A GIULIANO GEMMA (1938-2013): ASSISTA A "DIAS DE IRA"

terça-feira, 5 de março de 2013

JUDICIÁRIO QUER EXERCER A CENSURA ARTÍSTICA

Agora coube a um togado revirar as imundícies da lixeira da História em busca de tesoura de Torquemada --a mesma que, durante a ditadura militar, foi empunhada por um bando de indivíduos inescrupulosos, dispostos a tudo por dinheiro.

Naquele período infame,    o paradigma dos castradores de intelectos foi Solange Teixeira Hernandes, diretora do Departamento de Censura Federal.

Mas, ao que se saiba, dona Solange & cia. não se voluntariaram para a vil, repulsiva e degradante função de censores. Foram escolhidos e não tiveram a dignidade de recusar, exatamente como os oficiais nazistas que atentaram contra a humanidade e depois alegaram ter cumprido ordens superiores -o que não os eximiu de receberem punições exemplares, merecidíssimas, do tribunal de Nuremberg.

Já o desembargador Marcelo Fortes Barbosa Filho, da 6ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo, só obedeceu à própria (in)consciência ao proibir a dramatização de um acontecimento trombeteado  ad nauseam  no noticiário jornalístico, a ponto de ficar conhecido por dezenas de milhões de brasileiros.

À  imprensa abutre  é permitido derivar folhetins oportunistas do Caso Nardoni e que tais, martelando-os dia e noite, de forma a extrair o máximo de ganhos de episódios trágicos que jamais deveriam ser expostos com tanta crueza e tamanha leviandade. O teatro, contudo, é impedido até de evocar tais acontecimentos para deles extrair conclusões mais gerais sobre a nossa sociedade e o nosso tempo, estimulando a reflexão.

Trata-se de um atentado contra a democracia brasileira. É um acinte à nossa Constituição, cujo artigo 5º fulmina as pretensões das  otoridades   atrabiliárias e obscurantistas, ao estabelecer que "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença".

O diretor da peça Edifício London, Lucas Arantes, enfocou a morte da menina Isabella com a pretensão de dela derivar "uma mitologia universal".

O desembargador Solange, sem evidenciar a mais remota afinidade com a manifestação artística, sentenciou que a peça da companhia Os Satyros configuraria "violação à imagem" de Isabella e "efetiva agressão à sua pessoa".

Consultou, pelo menos, algum crítico teatral, que lhe explicasse didaticamente as ferramentas dessa arte? Não. Como o mais desinformado aldeão do mais distante grotão, o meretíssimo ficou escandalizado com o fato de a morte de Isabella ter sido representada pelo lançamento de "uma boneca decapitada por uma janela".

O que ele queria, que arremessassem uma atriz com marcas de agressão e ela se esborrachasse no palco?!

Fico imaginando qual seria a reação do melindroso desembargador à interpretação de "Dead Babies", música/performance de 40 anos atrás (veja o vídeo aqui), tolerada pela sociedade em nome da liberdade de expressão artística, que deve proteger inclusive os espetáculos de mau gosto. Provavelmente condenaria Alice Cooper ao esquartejamento ou ao garrote vil...
LEIA TAMBÉM, NO BLOGUE "NÀUFRAGO DA UTOPIA" (clique p/ abrir):

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

CADÊ A Dª SOLANGE QUE ESTAVA AQUI?

Foi um episódio, no mínimo, bizarro.

Nesta 4ª feira (5), escrevi um texto comentando as perspectivas eleitorais e pedindo apoio para a minha campanha a vereador de São Paulo, bem como para a de Carlos Giannazi a prefeito.

Depois de salvá-lo normalmente no meu blogue de campanha, abri de novo para fazer algumas correções. Aí, começou a aparecer uma mensagem impugnando  caracteres  do post.

Não consegui salvar mais, de jeito nenhum. Para testar, cheguei inclusive a deixar só uma parte do texto; não salvou.

Deletei tudo e abri um novo post; não salvou.

Tentei postar nos meus dois outros blogues; não salvou.

Finalmente, postei num blogue (também do Blogger!) cujo dono é meu amigo e me permite incluir textos lá diretamente. Aí salvou!  

Como sou teimoso, hoje voltei a tentar postar nos meus três blogues... e entrou no ar sem problema nenhum!  Está aqui.

Se alguém entendeu, por favor, explique para mim e para os leitores.

Não sou dado a teorias da conspiração, mas estranhei este problema inédito. Sou blogueiro desde janeiro/2007 e nunca me ocorrera nada semelhante.

É claro que nós, gatos escaldados pela ditadura, ficamos sempre com os pelos eriçados quando qualquer ocorrência nos reaviva as lembranças de nossa via crucis jornalística sob o tacão da  dona Solange

Diretora do Depto. de Censura Federal de 1980 a 1984, Solange Teixeira Hernandes acabou virando sinônimo e símbolo da atividade, talvez porque seu nome aparecesse no atestado de liberação do filme que os cinemas eram obrigados a projetar no início de cada sessão. 

Pendurou a tesoura e está levando vida tranquila em Ribeirão Preto, SP. Uma reportagem do JB a apresenta como uma velhinha afável. 

Mesmo assim, continua nos assombrando em nossos pesadelos...

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

...PORQUE SOU FORTE E TENHO RAZÃO!

Não sei quem e por que está censurando meus blogues pessoais: o Náufrago da Utopia e o Celso Lungaretti - O Rebate, que mantenho de longa data, e o Diário de Campanha do Lungaretti, que criei para armazenar material correlato à minha candidatura.
 
O certo é que, nesta 4ª feira (5) inteira, os três  estão rejeitando um texto no qual analisei as perspectivas eleitorais e pedi o apoio dos companheiros (doações e ajuda na divulgação, não votos!).

Sendo tão acentuada a desigualdade de recursos em relação aos principais partidos --minha campanha é paupérrima--, se nem à blogosfera eu puder recorrer e se nem uma força dos amigos eu puder pedir, que chance terei? Nenhuma, claro.

Então, não me conformo nem me conformarei jamais com tal restrição, extremamente antidemocrática, provenha de quem provier.

Consegui postar o mesmíssimo texto em dois espaços de amigos e peço a todos que o acessem lá. (clique aqui ou aqui). Constatarão quão aberrante foi terem colocado um filtro qualquer para impedir que eu ponha no ar uma mensagem tão inofensiva.

E, se este desafio que estou lançando me acarretar mais alguma pendenga, arcarei com as consequências, desde já antecipando que lutarei até o fim, como sempre. 
 
Como cantou certa vez o Vandré: "porque sou forte e tenho razão".

BLOGUE CENSURADO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Hoje este blogue não aceitou de forma nenhuma o texto que tentei postar,  pedindo o apoio dos companheiros para a minha paupérrima campanha política.

Se nem a web eu puder utilizar para espalhar minhas mensagens, que chance terei neste confronto extremamente desigual com as grandes máquinas políticas e seus igualmente grandes corrupt..., quer dizer, doadores.

Caso se trate de uma determinação do TSE, partiu de alguém que não entende absolutamente nada de internet... nem de democracia!

quarta-feira, 25 de julho de 2012

SERRA ESCORREGA DE NOVO. E TOMBA SOBRE SEU PASSADO

José Serra perdeu o equilíbrio de novo.

Fez triste figura mais uma vez.

Desonrou novamente os ideais de outrora.

Embora tenha terceirizado o ataque jurídico e verbal contra o blogue Conversa Afiada  (do Paulo Henrique Amorim) e o site Luís Nassif OnLine, as responsabilidades política e moral são dele, Serra. Só dele. Pessoais e intransferíveis.

Pois foi em benefício de sua candidatura que o PSDB fez uma representação à Procuradoria Geral Eleitoral, pedindo investigações... com o evidente objetivo de promover intimidações!

E foi para evitar que Serra aparecesse como paladino da imposição da censura na internet, qual um  velho cavalheiro indigno  (1) a clamar pela volta da Dª Solange (2), que o presidente tucano Sérgio Guerra incumbiu-se de tentar justificar o injustificável nos papos com a imprensa.

Assim como era seu vice, Índio da Costa, quem cortejava os eleitores de extrema-direita durante a campanha eleitoral de 2010, poupando o ex-presidente da UNE da  saia justa  de aderir ele próprio à retórica de quem fechou a UNE.

Que moral tem para falar em "atentado à democracia brasileira" o dirigente máximo do partido de Geraldo Alckmin?!

A barbárie no Pinheirinho e a ocupação militar da USP não passam de balões de ensaio golpistas, para aferir a resistência da sociedade brasileira a uma recaída totalitária, a um novo 1964. 

Ou seja, estes episódios sim merecem ser qualificados de atentados à democracia --pois são reais, bem reais, tanto que houve até uma vítima fatal (ver aqui). Não virtuais e supostos.

Pior do que escorregar do skate é vacilar em relação ao próprio passado, perdendo a identidade que o sustentava e esborrachando-se no chão dos oportunistas.
  1. aos patrulheiros do politicamente correto, informo que não se trata de afronta aos idosos, mas sim de alusão irônica ao título de uma peça do Brecht, A velha dama indigna. 
  2. Solange Teixeira Hernandes, a censora-símbolo da ditadura militar.