Fui ativista estudantil (1967/68). Militante clandestino (1969/70). Preso político (1970/71). Tenho travado o bom combate, lutando por um Brasil mais justo, defendendo os direitos humanos, combatendo o autoritarismo.

Sou jornalista desde 1972. Crítico de música e de cinema. Cronista. Poeta. Escritor. Blogueiro.

Tentei e não consegui eleger-me vereador em São Paulo. Mas, orgulho-me de ter feito uma campanha fiel aos objetivos nortearam toda a minha vida adulta: a construção de uma sociedade igualitária e livre, tendo como prioridades máximas o bem comum e a felicidade dos seres humanos.

Em que a exploração do homem pelo homem seja substituída pela cooperação solidária do homem com os outros homens. Em que sejam finalmente concretizados os ideais mais generosos e nobres que a humanidade vem acalentando através dos tempos: justiça social e liberdade.

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sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

EM JANEIRO A USP VOLTARÁ A TER UM REITOR DE VERDADE. FORA, TFP!

Há companheiros que igualam a atual democracia a serviço dos poderosos à ditadura de 1964/85. Geralmente, os que nasceram depois dos anos de chumbo ou eram muito jovens para guardarem uma lembrança mais precisa do arbítrio.

Um pequeno exemplo da diferença entre os dois períodos históricos acaba de ser dado pelo governador Geraldo Opus Dei Alckmin.

Em novembro de 2009, o então governador José Serra, prestes a fazer uma campanha presidencial de orientação acentuadamente direitista, escolheu para reitor da Universidade de São Paulo o segundo colocado na lista tríplice que lhe foi submetida: João Grandino Rodas, menina dos olhos da Tradição, Família e Propriedade.

Rodas tinha o pior currículo possível e imaginável.

Como diretor da Faculdade de Direito da USP, requisitou em agosto de 2007 a entrada da tropa de choque da PM para a expulsão de manifestantes que haviam ocupado o prédio em função da Jornada em Defesa da Educação.

Integrando a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos entre 1995 e 2007, indeferiu todos os pedidos de reparação que pôde -127 dos 172 processos nos quais atuou-, quase sempre por questiúnculas burocráticas como a de que o prazo para os requerimentos teria se esgotado. Chegou ao cúmulo de negar a participação da ditadura no assassinato da estilista Zuzu Angel, sendo, contudo, voto vencido.

Depois, como reitor da USP, reviveu os piores tempos da repressão ditatorial, ao aquartelar permanentemente a PM no campus universitário, gerando todo tipo de provocações, enfrentamentos e atritos com estudantes, professores e servidores.

Afora as denúncias de corrupção e má gestão que pipocavam desde que era diretor da Faculdade de Direito. Como reitor da USP, foi, p. ex., acusado da compra de imóveis com preços elevados, extinção de cursos e vagas, terceirização da universidade e aumento do filtro social para a entrada de alunos na Universidade.

Culminando com o expurgo de janeiro de 2011, quando Rodas foi responsável pela demissão em massa de 271 funcionários da USP.

Na ocasião, o grande jurista Fábio Konder Comparato e outros quatro professores da USP assim se manifestaram:
"Após declarar-se pelo financiamento privado e pela reordenação dos cursos segundo o mercado, o reitor vem instituindo o terror por intermédio de inquéritos administrativos apoiados em um instrumento da ditadura (dec. nº 52.906/ 1972), pelos quais pretende a eliminação de 24 alunos.
Quanto aos servidores, impôs, em 2010, a quebra da isonomia salarial, instituída desde 1991, e, para inibir o direito de greve, suspendeu o pagamento de salários, desrespeitando praxe institucionalizada há muito na USP. 
Agora, em 2011, determinou o 'desligamento' de 271 servidores, sem prévio aviso e sem consulta a diretores de unidades e superiores dos 'desligados'. Não houve avaliação de desempenho. Nenhum desses servidores possuía qualquer ocorrência negativa. As demissões atingiram técnicos na maioria com mais de 20 anos de serviços prestados à universidade.
O ato imotivado e, portanto, discriminatório, visou, unicamente, retaliar e aterrorizar o sindicato (Sintusp), principal obstáculo à privatização da USP..."
A indignação foi tamanha que Rodas recebeu (e esnobou!) convite para prestar esclarecimentos na Assembléia Legislativa de São Paulo. Fez-se representar por um subalterno escolhido à sua imagem e semelhança: sem ter como justificar as medidas arbitrárias, ele abandonou intempestivamente a sessão, deixando de prestar os esclarecimentos solicitados.

A CONVENIÊNCIA POLÍTICA PESOU 
MAIS DO QUE A AFINIDADE IDEOLÓGICA

Se estivéssemos numa ditadura, Alckmin poderia tranquilamente nomear o favorito de Rodas, Wanderley Messias, com o qual certamente tem grande afinidade ideológica. Não precisaria levar em conta o fato de o colégio eleitoral (formado por membros do Conselho Universitário, dos conselhos centrais e das congregações das unidades, dos conselhos deliberativos de museus e institutos especializados) tê-lo relegado ao terceiro lugar, com apenas 462 votos.

Já na nossa (ainda que imperfeita) democracia, um valor mais alto se alevantou, determinando sua decisão: o fato de a permanência do PSDB no Palácio dos Bandeirantes estar seriamente ameaçada. Então, tratou de eliminar um foco de permanente tensão, que poderia lhe ser muito prejudicial na eleição de 2014, caso, p. ex., algum confronto entre fardados e universitários terminasse em morte. . 

Daí haver optado pelo candidato que não só venceu amplamente a disputa no colégio eleitoral (obtendo 1.206 votos, enquanto os concorrentes, somados, totalizaram 960), como também foi o preferido numa consulta aberta na universidade, em que 14 mil pessoas indicaram seu predileto.

Vai daí que, no próximo dia 25, a USP voltará a ter um reitor de verdade, após as péssimas e turbulentas gestões de Suely Vilela Sampaio e Rodas. 

Com isto, o processo de fascistização da USP -paradoxalmente iniciado por um ex-presidente da UNE- vai ser, enfim, detido. Alvíssaras!

Caberá ao médico Marco Antonio Zago, que se define como um apaziguador, a missão de eliminar todos os resquícios da praça de guerra em que a USP foi transformada ultimamente. 

Começando pela imediata extinção do convênio com a PM, uma vergonha para qualquer instituição de ensino superior em qualquer país do mundo.

sábado, 21 de setembro de 2013

BATALHA DE NETOS NA ELEIÇÃO PRESIDENCIAL

Campos flerta com o empresariado. O que Arraes diria?
A eleição presidencial de 2014 poderá incluir uma batalha dos netos: o do comunista Miguel Arraes (Eduardo Campos, PSB) contra o do conservador Tancredo Neves (Aécio Neves, PSDB).

O primeiro avô, um bravo guerreiro, resistiu como pôde aos golpistas de 1964. 

O segundo avô é suspeito de, embora fosse oposicionista (moderado), haver tramado a derrota das diretas-já, para depois obter a Presidência da República pela via indireta. 

Político sem carisma para uma vencer uma disputa nacional nas urnas (nem de longe era páreo para Leonel Brizola), teria fechado acordo com aqueles filhotes da ditadura dispostos a tudo para manterem-se no poder após a derrocada da dita cuja. Até de votarem contra a Emenda Dante de Oliveira e, no momento seguinte, darem uma guinada de 180º, abandonando a canoa furada dos fardados e indo ajudar o Maquiavel de Minas a ser vitorioso no colégio eleitoral.

Quando se discute a existência ou não de Deus, vem-me sempre à mente um excelente motivo para responder afirmativamente: o fato de Tancredo Neves ter ganhado, mas não levado, em 1985. Seríamos outro país se houvéssemos saído da ditadura pela porta da frente.

Mas, ter ancestral respeitável não significa que Campos vá seguir-lhe os passos. Hoje não boto a mão no fogo por personagem nenhum da política oficial.

Como o avô, Aécio não tem carisma para voos maiores
No terreno das possibilidades, assim como fui dos primeiros a perceber que Fernando Collor era mais do que um azarão em 1989, tenho a mesma intuição no caso de Campos.

Porque aquela campanha e a próxima coincidem num aspecto: o profundo desencanto popular com a estagnação dominante e com os políticos mais associados às mazelas amplamente repudiadas. Quando o povo está saturado das feias caras de sempre, tende a voltar-se para os  outsiders, ou os que aparentam sê-lo.

Collor não era, só enganava bem.

Campos também fica convincente no papel. A incógnita é se, em algum ponto do trajeto, vai honrar o legado familiar e a orientação socialista do seu partido, ou optará por ser apenas  mais do mesmo: outro esquerdista que  endireita  para tornar-se palatável aos poderosos. Seu empenho em seduzir o grande empresariado aponta na última direção.

Há espaço para ele ocupar, se tiver o beneplácito dos donos do Brasil; afinal, a safra de presidenciáveis é das mais chinfrins.

O sempre previsível Aécio Neves não está decolando e salta aos olhos que o desnorteado José Serra jamais decolará. O PSDB parece fadado a apoiar candidato de outro partido, caso haja 2º turno.

Marina Silva também não leva jeito de repetir 2010. Foi a  outsider  daquele pleito e o bom desempenho a levou a fazer planos mirabolantes, sem perceber que tais situações são únicas na vida e em quatro anos tudo muda.

Campanha de 2014 deverá ser turbulenta como a de 1989
Passado o atrativo da novidade, sobra-lhe quase nada, até porque sustentabilidade nunca foi uma grande preocupação dos brasileiros.  A Marina agora está mais para enésima reprise na sessão da tarde ou sobras requentadas servidas no jantar: não empolga ninguém.

Dilma, com seu governo opaco e sem imaginação num momento que clama por estratégias ousadas, bem fará se não considerar a reeleição como favas contadas; o meu palpite é que vá ganhar no 1º turno ou perder no 2º.

Lula seria a  bola de segurança  do PT, praticamente imbatível mesmo numa campanha que promete ser marcada por surpresas e intempéries, ao contrário das últimas. Resta saber se conseguirá tirar a batata da indicação do fogo sem queimar os dedos. 

Na minha avaliação, sua relutância em assumir-se candidato se deve ao fato de a pupila querer ardentemente a reeleição; não é do feitio de Lula entrar em divididas.

Mas, se a permanência petista no poder correr sério risco, não tenho dúvidas de que ele prazerosamente aceitará a missão de ser o  salvador da pátria.

As apostas estão abertas.

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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

ELEITORADO QUERIA O NOVO. TEVE DE SE CONTENTAR COM O MENOS VELHO

Na eleição para prefeito de São Paulo havia duas certezas:
  • a chegada de José Serra no 2º turno;
  • sua derrota final.
Os sucessivos e cada vez mais insatisfatórios mandatos dos tucanos e seus aliados, no Estado e na cidade de São Paulo, saturaram o eleitorado. Com enorme rejeição, Serra jamais conseguiria remar contra esta maré. Seu eleitorado cativo só lhe permitiria levar a disputa para a prorrogação, tornando-se, a partir daí, presa fácil para o adversário.

Mais: os eleitores ansiavam pelo  novo.

Muito se falará sobre o talento que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem para eleger postes, mas a sorte desempenhou papel importante.

O espaço da novidade foi imediatamente ocupado por Celso Russomanno, beneficiando-se do prestígio televisivo e do apoio da Igreja Universal.

Sua arrancada fulminante impediu que um  novo  mais consistente (e menos identificado com a velha podridão) se afirmasse.

Nas duas semanas que antecederam o 1º turno, a propaganda do PT desconstruiu Russomanno, explorando episódios do seu passado e plantando na cabeça do eleitor a idéia de que ele iria encarecer o transporte coletivo. Não era bem isto, mas só candidato tolo faz propostas complicadas, que podem ser voltadas contra si, tendo pouco tempo no horário eleitoral para as explicar.

O esvaziamento do balão Russomanno, em cima da hora, não deu aos eleitores oportunidade para se direcionarem a outro  novo. O caminho ficou aberto para  o triunfo de Fernando Haddad.

A esquerda consequente fez campanha pelo voto nulo no 2º turno e tem um resultado apreciável para exibir: 500.578 votos (7,26%).

Somados aos votos em branco (299.224, 4,34%) e à abstenção (1.722.880, 19,99%), são quase três eleitores em cada dez (29,2%) que não viram motivos para votar nem em Haddad (3.387.720, 39,3%), nem em Serra (2.708.768, 31,4%).

Lembrem-se: estamos num país em que  O VOTO NÃO É FACULTATIVO (!), TENDO-SE MANTIDO, MESMO DEPOIS DA REDEMOCRATIZAÇÃO, SEU AUTORITÁRIO CARÁTER COMPULSÓRIO (!!) ATÉ A AVANÇADA IDADE DE 70 ANOS (!!!). Então, tais números evidenciam um enorme desânimo e insatisfação com as opções predominantes.

E que predominam exatamente porque o jogo é de cartas marcadas: os maiores partidos usam e abusam do poder econômico, além de praticamente monopolizarem o horário gratuíto.

De quebra, dão um jeito de fazer com que sejam cancelados os debates televisivos QUANDO TEMEM UMA ALTERAÇÃO DO QUADRO ELEITORAL. Foi o que a TV Record fez nos dois turnos e a Globo no 1º turno.

Ou seja, o sistema aprendeu como evitar que uma nova Luíza Erundina conquiste um governo importante, o que é fundamental para o deslanche de um pequeno partido.

Se já tivesse tal expertise em 1988, o PT levaria muito mais tempo para crescer e talvez não estivesse hoje, paradoxalmente, em condições de barrar os herdeiros dos seus ideais de outrora, como acaba de fazer na cidade do Rio de Janeiro, onde sua opção política foi, simplesmente, IMORAL.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

NEM VOTO IMPENSÁVEL, NEM VOTO INÚTIL

Há posicionamentos díspares no PSOL sobre se os filiados devem votar nulo ou praticar o voto útil neste domingo.

Como não falo pelo partido nem me considero suficientemente informado sobre o quadro nacional, vou opinar somente sobre o contexto paulistano.

José Serra iniciou, como governador, a montagem de um embrião de estado policial no Estado e na cidade de São Paulo, transformados num verdadeiro laboratório de testes de fórmulas fascistizantes; votar nele é impensável.

Fernando Haddad não se propôs, como candidato, a lutar contra tal escalada autoritária, nem assumiu o compromisso de exonerar imediatamente os 30 subprefeitos (de um total de 31) que são oficiais da reserva da Polícia Militar; votar nele é inútil, pois quem faz  campanha de consumo  governa como  prefeito do sistema, não como prefeito ideologicamente coerente.

O PT hoje é um partido reformista. Quer apenas atenuar os malefícios do capitalismo, tendo abdicado de fazer a revolução. 

Então, quem considera que o capitalismo esgotou sua função histórica e se tornará cada vez mais nocivo, desumano e exterminador nesta fase terminal, não tem motivo nenhum para apoiar os que se propõem a prolongar sua agonia, ao invés de dar-lhe um fim.

Os autênticos seguidores de Marx ou Proudhon não podem, portanto, optar nem pelo voto impensável, nem pelo voto inútil. Têm de votar NULO!

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O PRIMEIRO ME CAUSA TÉDIO. O SEGUNDO, NOJO.

No balanço que fiz da eleição paulistana, um dia depois do primeiro turno, já defini minha posição quanto ao segundo:
  • não apoiarei José Serra nem em eleição para síndico de prédio;
  • só apoiaria Fernando Haddad se ele assumisse um compromisso explícito de tudo fazer, como prefeito, para a desmontagem do estado policial em gestação no estado e na cidade de São Paulo, começando pela exoneração imediata dos 30 subprefeitos (de um total de 31) que são oficiais da reserva da PM;
  • se, como tudo levava a crer, Haddad continuasse fazendo campanha anódina, como  candidato de consumo  e não  candidato ideológico, a única opção coerente para um homem de esquerda seria o voto nulo.
Hoje já é evidente que o PT permanecerá em cima do muro quanto ao que realmente importa, como ficou quando o governador Geraldo Alckmin ordenou a blietzkrieg do Pinheirinho, incluindo descumprimento de ordem judicial e sequestro de idoso ferido por parte da Polícia Militar para que seu estado lastimável, após o espancamento sofrido, ficasse fora do noticiário. 

É compreensível o governo federal não agir contra o governo estadual, mas se o PT tivesse o mínimo respeito pela própria história, convocaria sua militância para protestar da forma mais veemente possível.

Enfim, está certíssimo o PSOL em recomendar o voto nulo.

Causou alguma celeuma o comentário feito no Twitter pelo maior nome do partido, Plínio de Arruda Sampaio, de que "o importante agora é derrotar o Haddad porque ele é incompetente e porque sua vitória fortalece o Lula e a turma do  mensalão".

Mais tarde, completou: votará segundo a orientação partidária, mas considera Serra competente (embora "direitoso") e Haddad incompetente ("É só ver o estrago que foi esse Enem").

Peço licença ao  imprescindível  Plínio para discordar: entre um reformista trapalhão e um  direitoso  competente, o segundo é pior.

Haddad, no poder, agirá exatamente como Lula e Dilma, servindo o banquete para a burguesia e zelando para que algumas migalhas cheguem à mesa do povão.

A dupla sinistra Alckmin/Serra nos ameaça com um novo 1964, pois salta aos olhos que dela partiram vários balões de ensaio totalitários e que, havendo uma oportunidade golpista, vai jogar todo o peso de São Paulo a favor da derrubada do governo do PT.

Vejo o Haddad como alguém que jamais se destacaria no PT de 1979, um  não-cheira-nem-fede  que personifica bem a descaracterização do partido.

E o Serra como um novo Carlos Lacerda, aquele desertor das nossas fileiras que, utilizando o aprendido conosco, causou enorme mal ao Brasil.

O primeiro me causa tédio. O segundo, nojo.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

"QUEM NÃO GOSTA DE SAMBA, BOM SUJEITO NÃO É...

...É RUIM DA CABEÇA OU DOENTE DO PÉ!"

Os fotógrafos estão sendo cruéis com o José Serra na campanha eleitoral paulistana. 

Depois de terem clicado a cara de pânico ao escorregar do skate e a cara de bobo ao cobrar o pênalti e ficar sem sapato, agora captaram sua cara de desagrado ao receber, com a boca bem fechada, o beijo da eleitora. 

Já vi gente mais animada em enterros.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

SAMPA QUER ELEGER UM NOVO CONSERVADOR. ARGH!

O jornalista Paulo Francis estava certíssimo ao qualificar a sociedade de consumo de  inferno pamonha, ou  bocó. Acertou na mosca.

Até a segunda metade do século passado, as criticadas elites procuravam, pelo menos, tornar o cidadão comum melhor do que era. Podia-se, claro, discordar do tipo de melhora que tinham em mente, mas não do conceito de que nossa jornada na Terra deva ser evolutiva. Não nascemos prontos, construímo-nos ao longo da vida.

A sociedade de consumo modificou para pior, bem pior, tal equação.

Os homens deixaram de ser tratados como cidadãos. Passaram a ser encarados, isto sim, como  consumidores. Não são mais  gente, são  mercado.

Então, não se questionam mais seus desejos. Se alguém estiver querendo comprar, haverá alguém disposto a vender. Literalmente  tudo, seja às escâncaras ou por baixo do pano.

Em termos psicológicos, isto significa, simplesmente, que as pessoas são mantidas numa eterna infância. Não superam mais o narcisismo inicial. Não encontram mais a justa medida entre o que querem e o que podem. Não aprendem que sua felicidade depende da felicidade dos outros, que sua satisfação e seu prazer serão muito mais completos se compartilhados.

Ao mesmo tempo, os objetos de consumo pelos quais tanto anseiam nunca são plenamente satisfatórios. E as vítimas da engrenagem infernal do sistema passam a vida inteira correndo atrás do que jamais obtêm, adquirindo o que não precisam e trabalhando sofregamente sem que haja justificativa real para tanto estresse e tanto enfarte.

Este é o motivo maior do declínio da esquerda nas últimas décadas. O que oferecíamos era uma perspectiva de sociedade melhor, na qual as pessoas se tornariam melhores: era o ideal do homem novo. 

Os consumistas passam a vida apaixonados pelo próprio umbigo e querendo ter o mundo como espelho, pois anseiam pateticamente por verem-se nele refletidos. Não o pretendem melhorar, o que gostariam é de melhorar a própria posição numa sociedade desumana e injusta. Vai daí que hoje são bem poucos os que se dispõem a dedicar a vida aos grandes ideais.

Há meio século a Escola de Frankfurt previu que chegaríamos exatamente a este  inferno pamonha, no qual os indivíduos perderiam o controle sobre suas próprias vidas, sem nem mesmo atinarem com os motivos de sua infelicidade, mesmerizadas pela influência atordoante da indústria cultural.

O que fazer? --indagaria Lênin.

Herbert Marcuse apostava que tal manipulação cientificamente implementada seria capaz de evitar que a maioria formasse uma consciência crítica, mas não que acontecessem, em determinadas circuntâncias, explosões espontâneas de revolta. Não dá para represar-se tudo. E as contradições insolúveis do capitalismo estão aí para fornecerem os estopins de tais explosões espontâneas; caso da crise econômica global.

Como nós, da esquerda, devemos nos comportar nos  intervalos  entre tais explosões espontâneas, nas marés vazantes, quando as massas não estiverem dispostas a nos acompanharem em voos mais altos?

É uma questão crucial.

Podemos manter a coerência com nossos ideais e, mesmo não influindo decisivamente nos acontecimentos políticos, continuarmos contestando as injustiças sociais, as formas mais sofisticadas de exploração do homem pelo homem que hoje predominam, a desumanização que o capitalismo promove e barbárie à qual nos conduz. Assim, estaremos nos qualificando para liderar contingentes mais amplos quando estes acordarem do coma induzido pelo sistema.

Há os que preferem combater o monstro com as armas do monstro, acreditando que não se tornarão monstruosos. No entanto, acabam é igualando-se ao que combatem. Não mudam o mundo; são mudados pelo mundo.

CANDIDATURAS IDEOLÓGICAS x CANDIDATURAS DE CONSUMO

Se o que os eleitores
queriam era um monstro...
É chocante, p. ex., vermos as eleições se tornarem uma disputa de quem melhor se encaixa no perfil de candidato identificado exatamente pelos métodos que as empresas utilizam para avaliar a viabilidade de  produtos: pesquisas qualitativas e as inferências dela extraídas pelos analistas.

Na eleição paulistana, o  produto  assim determinado como o de maior aceitação potencial no mercado seria um candidato ao mesmo tempo  novo  e  conservador.

Isto explica o empenho do Lula em impor o Fernando Haddad, que nem de longe tem a  cara do PT, mas se encaixa na imagem do  novo.

O PMDB também apostou numa figura de galã de telenovela, Gabriel Chalita.

O PSDB pensou que desse para maquilar o (hoje) conservador José Serra, fazendo-o parecer bem mais novo do que é. Botou-o para pedalar, para subir em skates, para bater pênaltis, etc., mas a mágica besta não funcionou: ele quase caiu do skate,  isolou  o sapato e mergulhou o ridículo, tornando-se o alívio cômico da campanha na internet.

Como já tinha a preferência  de cabresto  dos evangélicos zumbificados e dos videotas acostumados a vê-lo posar de paladino dos consumidores, o  novo conservador  para o qual o eleitorado está pendendo é Celso Russomanno.

Pior: com parcela substancial de votos tradicionalmente petistas.

Então, é hora de o PT fazer uma profunda reflexão sobre se compensou abandonar as candidaturas ideológicas e aderir às  candidaturas de consumo.

...encontraram:  esta imagem
atesta o acerto da escolha.
Antigamente, quem votava no PT era por acreditar nos ideais e posturas do PT. O partido era o fator decisivo.

Agora, o candidato petista é propagandeado da mesmíssima forma e faz as mesmíssimas promessas mirabolantes dos centristas, direitistas e dos meros fisiológicos. Não tem mais sequer os cabos eleitorais voluntários, precisa contratar tarefeiros.

Então, quando a figura não convence, como o insosso Haddad, o atual eleitorado petista migra insensivelmente para um antípoda ideológico como o Russomanno.

E, se um dia houver crise grave, nestes tristes trópicos em que o golpismo nunca se torna prática definitivamente sepultada, jamais lutará pelo governante que escolheu.

O grande Plínio de Arruda Sampaio certa vez colocou o dedo na ferida: valeu a pena o PT ter chegado à Presidência com o compromisso de manter intocada a política econômica neoliberal, ou seja, limitado a gerenciar os negócios capitalistas como um FHC o faria?

Da mesma forma, não seria melhor, vencendo ou perdendo a eleição, educar o eleitorado, tentando convencê-lo de que precisa, isto sim, de um  contestador, pouco importando se novo ou velho?  Pois, prostrando-nos desta forma aos humores momentâneos das massas, o que faremos quando a maré for fascista? Escolheremos um candidato que seja clone do Mussolini?!

Há dois milênios, Jesus Cristo já dizia que não: "O que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?" (Mateus, 26:16).

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A ESQUERDA DEVE PRIORIZAR SEMPRE A TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

Quando decidi disputar minha primeira eleição aos 62 anos --idade que já terei completado no 1º turno--, levei em conta fatores:
  • políticos, principalmente o imperativo de lutarmos contra o processo de fascistização em São Paulo, que tende a servir como modelo para todo o País;
  • pessoais, por tratar-se de uma oportunidade para furar o bloqueio macartista que a grande imprensa me impõe, como profissional e como personagem histórico; e
  • o caráter didático que minha campanha poderia ter, ao resgatar valores essenciais da esquerda da minha geração, hoje quase esquecidos.
Dei, p. ex., máximo destaque a algo que no passado era o óbvio ululante para revolucionários formados na tradição marxista ou anarquista: que nossa participação no Legislativo e Executivo, sob o capitalismo, tem caráter eminentemente tático, servindo para acumularmos forças e prepararmos a transição revolucionária, mas não se constituindo, jamais, num objetivo em si!

Só por ter chamado a atenção para esta postura fundamental, minha campanha terá valido a pena.

Igualmente importante está sendo a ênfase que dou à união da esquerda anticapitalista, pois hoje só conseguiremos exercer uma influência marcante no processo político se atuarmos como bloco. Seria exagero dizer que unidos venceremos, mas, com certeza, somando forças obteremos algumas vitórias, ponto de partida para sairmos da atual condição de coadjuvantes.

Desunidos, pelo contrário, perderemos todas as paradas. Rivalidades clubísticas pertencem ao universo das torcidas de futebol, não ao nosso. O que conta, para nós, é o objetivo maior de transformação da sociedade.

Neste sentido, proponho uma reflexão sobre as três candidaturas que encabeçam as pesquisas eleitorais.

Vencedor, José Serra manteria a parceria fascistizante com o governador Geraldo  Opus Dei  Alckmin. Seria mais do mesmo. Mais tropas de choque na USP, mais Pinheirinhos, mais pobres e doentes sendo escorraçados para favorecer os grandes empreendedores imobiliários (aqueles que financiam  generosamente  a campanha de quase todos os candidatos promissores do  sistema).

Celso Russomanno agregaria um componente ainda mais nefasto ao processo, além dos balões de ensaio totalitários que têm marcado os sucessivos governos dos tucanos e seus aliados: a emergência de um perigosíssimo populismo de direita. É um pesadelo pensarmos no que acontecerá se as más bandeiras estiverem sendo carregadas, na periferia e nos bairros pobres, pelo exército de zumbis cegamente submissos aos pastores eletrônicos.

Os vendilhões do templo, ao menos, limitavam-se a tocar seus negócios. A versão atual vai além, vandalizando templos umbandistas, perseguindo gays, querendo impor à sociedade uma tutela moral medievalista... e hostilizando a esquerda, como fez ao chantagear a presidente Dilma Rousseff. A bancada evangélica condicionou seu apoio ao projeto de criação da Comissão da Verdade à não participação de veteranos da resistência no colegiado. Jesus Cristo e sua vara estão fazendo muita falta...

Quanto a Fernando Haddad, que os companheiros da esquerda petista reflitam friamente: pode-se dele esperar uma firme oposição à escalada autoritária ou ficará no habital meio termo dos governos do PT no século 21? Ele é homem, p. ex., para desmontar o dispositivo de estado policial que Kassab sorrateiramente implantou, começando pela imediata exoneração dos 30 subprefeitos (num total de 31) que são oficiais da reserva da PM?

Então, repito minha exortação do 1º turno de 2010: quem vê no capitalismo o principal entrave à felicidade dos homens e a maior ameaça à sobrevivência da humanidade, tem de ser coerente, prestigiando os candidatos que assumem explicitamente posição contrária à desigualdade capitalista e favorável à transformação revolucionária: Carlos Giannazi (PSOL), Ana Luíza (PSTU) e Anaí Caproni (PCO).

Voto útil pode fazer sentido no 2º turno, para barrar uma candidatura nefasta como o foi a de José Serra e seu vice troglodita na última eleição presidencial, apoiada até pelas  viúvas da ditadura.

Mas, é importante priorizarmos, no 1º turno, o crescimento da esquerda autêntica em São Paulo, até para servir como estímulo à adoção de uma postura mais combativa por parte do próprio PT --o qual, vale lembrar, ficou devendo reações bem mais contundentes às  blitzkriegs  da dupla Alckmin/Kassab.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

TIRIRICA COVER ALEGRA A ELEIÇÃO PAULISTANA

ELE NÃO 
APRENDEU
COM A
PRIMEIRA
LAMBANÇA  
E PASSOU
VERGONHA
DE NOVO.
REINCIDIRÁ?

sábado, 15 de setembro de 2012

A ELEIÇÃO PAULISTANA ESTÁ SENDO UM TRIÂNGULO DAS BERMUDAS

O quadro eleitoral em São Paulo é desalentador.

O cavalo de Tróia das  empresas  (ou seria melhor dizer  gangues?) que atuam no mercado religioso encaminha-se para o 2º turno, já que as duas máquinas políticas mais poderosas desistiram de o tentarem derrubar desde já.

vira-casaca  e o  bebê de proveta  lançam sua munição mais pesada um contra o outro, apostando nas muitas vulnerabilidades do  explorador da fé acidental. Acreditam que, chegando lá, o vencerão facilmente no confronto final.

É uma aposta arriscada e que, no passado, muitas vezes teve resultados catastróficos --como catastrófica indubitavelmente seria a afirmação dos neopentecostais como força política de primeira grandeza, consequência óbvia se o tiro sair pela culatra.

A última chance de escaparmos deste  triângulo das Bermudas  são os debates eleitorais.

Se algum dos restantes sair-se muito bem, poderá atropelar na reta final, aproveitando a evidente falta de entusiasmo do eleitorado com o  bobo, o  mau  e o  feio  (a identificação com o filme famoso de Sergio Leone só não é total porque nem mesmo na acepção sarcástica do mestre do bangue-bangue à italiana o Fernando Haddad poderia ser considerado  bom, embora caia como uma luva quanto à maldade do Russomanno e à feiúra do Serra...).

Torço para que o companheiro Carlos Giannazi assuma-se como o candidato realmente antípoda do  sistema, a exemplo do Lula dos bons tempos. Assim, na pior das hipóteses, deixará sua marca impressa em cores vivas; e, para nós, a luta não acabará em outubro nem em novembro. Trata-se apenas de uma batalha e o que queremos é ganhar a guerra.

Que Giannazi, enfim, marque a diferença em termos ideológicos, pois jamais vai conseguir grande destaque numa disputa de quem virá a ser o melhor administrador em termos convencionais. Aí prevalecem inevitavelmente os que têm mais tempo no horário eleitoral e maior exposição na mídia.

A chance que lhe resta é uma só: convencer os eleitores de que se trata do único capaz de resgatar São Paulo das garras dos poderosos, evitando que a administração municipal continue priorizando negócios & negociatas em detrimento dos cidadãos.

Para quem sabe das coisas, trata-se do óbvio ululante. Os debates serão a última oportunidade para o Giannazi tornar o eleitorado ciente disto.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

REVOLUCIONÁRIO PODE ACEITAR QUE O COLOQUEM NA VALA COMUM DOS QUE NÃO MERECEM CONFIANÇA?

Consiga ou não eleger-me, a minha campanha deixará o legado de ter colocado em xeque os valores e procedimentos adotados pelos candidatos durante a temporada de caça aos votos, ajudando a definir parâmetros políticos e éticos para as candidaturas progressistas.

Dois dos principais: 
  • defendo que nos vejamos, acima de tudo, como integrantes da esquerda anticapitalista, e não de tal ou qual partido (nossos ideais comuns, que remontam a Marx e Proudhon, estão infinitamente acima da mentalidade clubística); 
  • e que nos apresentemos francamente ao eleitorado como REVOLUCIONÁRIOS que tudo faremos para minorar o sofrimento dos cidadãos sob o capitalismo, mas deixando claro que as soluções reais e as conquistas definitivas só virão com uma transformação maior da sociedade.
Candidaturas e mandatos nos servem, TATICAMENTE, para a acumulação de forças. Não temos o direito moral de igualarmo-nos aos farsantes que prometem mundos e fundos para elegerem-se, como se medidas circunstanciais fossem sanar mazelas estruturais.

O capitalismo está podre até a medula e é o obstáculo primordial à felicidade dos homens. Não será no Executivo e no Legislativo atuais que desataremos esse nó, embora tenhamos a obrigação de honrar nossos mandatos, bem representando e defendendo incansavelmente os trabalhadores, os excluídos, os injustiçados, os humilhados e ofendidos.

Afora estas grandes coordenadas, que nada mais são do que a recolocação de valores assumidos por boa parte da esquerda no tempo em que eu iniciava minha jornada, há as lições que estou extraindo desta campanha.

Nos últimos dias, p. ex., recebi a mensagem de que o movimento Ciclocidade exige que imprimamos, assinemos e lhe enviemos pelo correio um termo de comprometimento com suas metas, como condição para figurarmos na lista de apoiadores e nossas candidaturas serem por ele divulgadas.

Tenho tudo a ver, claro, com as propostas de priorização do transporte alternativo e de restrição do uso egoísta do espaço público. E minha posição já foi publicamente exposta em artigos como este, este e este.

Mas, minha história de vida é a de quem jamais trilhou os caminhos convenientes, sempre preferindo os da consciência. Não será aos 61  anos que vou transigir com imposições desse tipo.

Candidatos do sistema assinam às dúzias tais compromissos e depois dizem que não passavam de um  papelzinho  sem importância --está aí o Serra, que não me deixa mentir.

Como revolucionário, recuso-me a ser colocado nessa vala comum e a concordar com qualquer um que me veja como merecedor da  desconfiança organizada  dos cidadãos.

Também me causa total repugnância a idéia de toma-lá-divulgação-dá-cá-assinatura implícita nesse procedimento. Não faço trocas, defendo ideais. E quem já correu risco de vida e de destruição física/psicológica para os defender merece RESPEITO.

Mas, cansado das querelas sem fim a que os homens de princípio somos arrastados nestes melancólicos tempos presentes, tentei ser flexível na minha resposta.

Primeiramente, como é obrigatório, fixei minha posição: "...considero inadequada a assinatura compulsória de um termo de compromisso. Sou do tempo em que a palavra de um homem valia alguma coisa. E tenho uma história de vida que deve, ou deveria, inspirar credibilidade".

Eis um candidato muito bom p/
assinar termos de compromisso
Depois, deixei uma saída honrosa para ambas as partes: "...peço que me coloquem na lista dos apoiadores independentemente dessa formalidade. Como faço minha campanha sozinho e sou idoso, reivindico alguma compreensão. Já nem me lembro mais da última vez que enfreitei fila de agência de correio".

Ou seja, poderiam, se quisessem, abrir mão da exigência por eu ser idoso e não por concordarem comigo.

Não quiseram: "...realmente temos que exigir esta mínima e simples formalidade da carta assinada e enviada pelos correios. Como ainda estamos com bastante tempo até a data final, não é necessário enfrentar fila, basta selar o envelope e depositar em uma caixa de correios".

Só me restou a via da franqueza:
"...quem é incapaz de abrir exceções a regras burocráticas é igualmente incapaz de construir uma sociedade diferente, em que as necessidades humanas e o bem comum sejam a medida de todas as coisas. Na nossa vida, só a morte é inexorável. Todo o resto podemos mudar.

Não sei se você se sentirá bem deixando de fora de sua relação de apoiadores alguém que é personagem histórico, tem uma vida inteira de lutas nas costas e é um defensor consciente (não oportunístico) de suas bandeiras.

Mas, eu não me sentiria bem curvando-me a uma imposição destas, pois sempre as recuso...

...se, por milagre, for eleito, defenderei melhor do que ninguém as ciclovias... independentemente da postura paradoxal que vocês terão adotado".
Referindo-me ao  papelão  do Serra no episódio do  papelzinho, citei recentemente um verso lapidar do Tom Zé: "Palavra de homem racha, mas não volta diferente".

Palavra de revolucionário, mais ainda.

sábado, 8 de setembro de 2012

LÁ VEM O RUSSOMANNO COM SEU EXÉRCITO DE ZUMBIS.DEUS NOS ACUDA!

Está na Folha de S. Paulo:
"Pastores da Assembleia de Deus - Ministério de Santo Amaro transformaram um culto de aniversário de seu presidente, pastor Marcos Galdino, ontem à noite, em um ato da campanha de Celso Russomanno à Prefeitura.

Os pregadores pediram que cada fiel consiga cem votos para o candidato do PRB, que teve seu número de urna divulgado no púlpito.

'Eu quero pedir um presente pra vocês. Levem o nome do Celso Russomanno para mais cem pessoas. Vocês têm família, parentes, pessoas onde vocês trabalham. Temos uma meta a ser alcançada', disse o pastor Galdino.

Ele afirmou que a sede da igreja, em Santo Amaro (zona sul), recebeu 2.000 pessoas ao longo do dia. 'Se todos alcançarem [a meta], com certeza conseguiremos mais de 500 mil votos pra abençoar sua vida', continuou.
O pastor também instou os fiéis a gritar 'glória a Deus' se quisessem 'melhor saúde, transporte e educação para nossa cidade' e que os que acreditassem na vitória de Russomanno levantassem a mão. 'Vocês creem que ele será o próximo prefeito de São Paulo?', pregou.
Boa parte da plateia levantou a mão, aos gritos de 'aleluia'. O pastor disse que falava como 'profeta de Deus'.
Após uma oração para que Russomanno seja 'bem sucedido em prol dos desígnios dessa cidade', Galdino orientou cada fiel a cumprimentar a pessoa ao seu lado no templo falando 'dez, dez abraços', em referência ao número do PRB na urna eletrônica.
Ele também criticou o prefeito Gilberto Kassab (PSD) e o candidato do PSDB, José Serra, que teriam sido apoiados pela igreja no passado".
É o que venho alertando há algum tempo: os  pa$tore$ eletrônico$, que propagam e tornam cada vez mais rentável o culto ao bezerro de ouro, podem se tornar uma força política de primeira grandeza caso se apossem do governo e passem a gerir o orçamento da principal cidade brasileira.

Lembrem-se: Hitler só foi tão longe porque suas futuras vítimas o subestimaram. Começando pelos socialistas que, desatinadamente, atacaram a democracia alemã pela esquerda enquanto os nazistas o faziam pela direita.   

Contando com um exército de zumbis que atuarão como cabos e tarefeiros eleitorais gratuítos, até onde os exploradores da fé poderão chegar? O céu é o limite. 

Mas, para a democracia brasileira, o quadro que se delineia é o de um inferno. Deus nos acuda!

Não tenho dúvidas: o principal inimigo a ser enfrentado pelos cidadãos conscientes, na eleição paulistana, é Celso Russomanno.

José Serra já não oferece risco nenhum.  O monopólio tucano no estado e na cidade de São Paulo saturou--e a pregação monocórdia do velho vira-casaca, mais ainda. É um cadáver político pronto para ser definitivamente sepultado no dia 7 de outubro.

Mesmo que Fernando Haddad seja, desta vez, carregado para o poder por seus tutores presidenciais, pela máquina petista e pela melhor propaganda enganosa que o dinheiro pode comprar, é ave de voo curto. Com seu carisma zero nem a governador chegará.

O papel de Gabriel Chalita na eleição se resume a puxar votos para vereadores. A vocação do PMDB não é mais a de governar, mas sim a de ser muito bem recompensado para servir aos que governam, trocando o apoio de sua bancada pelas melhores Pastas. São os  profiissionais da governabilidade...

Já o projeto concebido para Russomanno pelos mentores de sua candidatura é muito mais ambicioso. Tanto que consegue unir todos os comerciantes que atuam em tal nicho do mercado, superando as querelas habituais entre os que disputam a mesma freguesia. 

Afora o padrinho principal (aquele que ficou imortalizado no vídeo da  apoteóse do butim), Russomanno está sendo apoiado também por aqueles que escondem dólares na bíblia para burlar alfândegas e cujos templos malconservados desabam na cabeça dos fiéis.

E, como se pode ver acima, também pela Assembléia de Deus. E sei lá quantos outros   mais do mesmo.

Repito: Deus nos acuda!

terça-feira, 4 de setembro de 2012

DISSECANDO O DEBATE ELEITORAL, SEM PAPAS NA LÍNGUA

Debates eleitorais me provocam a mesma reação que, em tempos idos, um grande escritor teve ao ver um filme de Hollywood.

Desavisadamente, ele aceitou uma encomenda de roteiro. Mas, não frequentava cinemas nem tinha a menor idéia da besteirinha que dele esperavam. 

Os produtores, gentilmente, convidaram-no para assistir, na cabine, a uma fita mais ou menos na linha daquela que pretendiam fazer. Depois de uns 10 minutos ele foi embora, perplexo e enojado. Abandonou, claro, o projeto. Jamais desceria tanto.

No debate de candidatos a prefeito promovido na 2ª feira (3) pela Folha de S. Paulo e Rede Manchete, fiquei com pena do companheiro Carlos Giannazi, obrigado a tentar abrir caminho em meio a tantas imposturas e tantos farsantes.

A maior de todas imposturas, claro, é o fingimento de que o prefeito seja uma espécie de gerentão que toma conhecimento e supervisiona pessoalmente cada ação administrativa, com liberdade para decidir o que bem entender. Eu vou fazer, eu vou acontecer, no meu governo isto, no meu governo aquilo... que comédia de mau gosto!

Trata-se de uma ilusão forjada para  adequar a política ao consumismo que, como mola-mestra do capitalismo terminal e putrefato dos dia de hoje, é o canto de sereia que nos arrasta para as profundezas da depressão econômica e das catástrofes ambientais.

Os candidatos não passam de produtos e como tais são vendidos, quase sempre por meio de propaganda enganosa. Uns garantem que não são cavalo de tróia dos mercadores da fé, outros que ficaram alheios à corrupção com a qual estão, isto sim, amalgamados. Quem consome cervejas associando-as a mulheres gostosas e não vê diferença entre os repulsivos bancos e as doces crianças, talvez engula também os protestos de inocência desses patéticos canastrões.

Governantes, sob o capitalismo, são meros títeres do poder econômico, obrigados a obedecer caninamente àqueles que realmente mandam. Quanto maior a importância da decisão a ser tomada, menor é a sua autonomia. Cuidam do acessório e fazem o que deles se espera no fundamental.

Eleições se travam entre grupos de interesses, representados pelos partidos. O que conta, em última análise, são as agremiações e as barganhas que elas acertam ou intermediam, não as características pessoais dos que são pinçados para aparecer na vitrine. Talvez um dia se chegue à perfeição de escolhê-los nas agências de modelos.

AVALIAÇÃO DOS INTÉRPRETES

Haddad não tem o charme de Chris Sarandon
e o eleitorado vai cravar-lhe uma estaca
Uma das minhas tarefas, quando atuava em assessorias de comunicação, era treinar sapos empresários para que parecessem garbosos príncipes ao darem entrevistas. Tinha ganas de vomitar quando um desses tacanhos ganhadores de dinheiro aparentava brilhantismo repetindo uma frase que eu criara para ele (às vezes tendo de a explicar pacientemente, pois o energúmeno não captava seu sentido...).

Então, avaliando criticamente as  interpretações, considero que se desincumbiu bem do seu papel Celso Russomanno, lobo quase perfeito em sua pele de cordeiro graças à experiência adquirida na TV. Mas derrapou ao deixar transparecer homofobia quando disse que seu partido aceita ATÉ  homossexuais. [Aliás, o que mais se poderia esperar de um partideco que aceita ATÉ pastores eletrônicos dedicados ao estelionato, curandeirismo, lavagem cerebral e instigação do ódio?]

Fernando Haddad lembra fisicamente o vampirão do primeiro A hora do espanto (interpretado por Chris Sarandon), só que sem o charme. A agência de modelos teria dúzias de opções melhores para sugerir. Ao vivo e em cores, com sua total falta de jeito e de carisma, desconstrói a enganação que os marqueteiros laboriosamente criam.

Ouso antecipar que não vai ser ele o adversário do Russomanno no segundo turno, pois se apresentará canhestramente em todos os debates; nesse aí não há Duda Mendonça que dê jeito. Anotem e me cobrem depois.

José Serra é carta fora do baralho. O monopólio de poder tucano no estado e na cidade cansou, a retórica do Serra mais ainda e, para piorar, ele carrega uma mala sem alça chamada Gilberto Kassab. Doravante só conseguirá eleger-se deputado federal, como o Maluf.

José Serra não assusta mais ninguém: final
melancólico de quem já travou o bom combate
Cruelmente, o comentarista Fernando Rodrigues notou que Serra muito fez para simular jovialidade aos 70 anos, mas ficou é parecendo gagá ao trocar as bolas, confundindo o dirigente do PRB ao qual Russomanno se referira:
"...é o candidato com a idade mais avançada. Luta para parecer demonstrar vigor. De maneira subliminar, emitiu um sinal oposto".
Ex-presidente da UNE e ex-exilado político (quem te viu, quem te vê...) deveria mirar-se no exemplo dado por Plínio de Arruda Sampaio no último pleito presidencial. Não tentou em momento algum disfarçar sua condição de octogenário. Perdeu a eleição, mas ganhou respeito e admiração, além de sair com a dignidade intacta. Como não forçou a barra subindo em skates, deles não despencou.

Soninha Francine é outra que está brigando com a certidão de nascimento. Faz caras e bocas de uma moçoila de 18 anos, mas tem 45. Não deveria insistir no estereótipo MTV. As pessoas percebem.

Fez-me lembrar Heloísa Perissé, fingindo ter um terço de sua idade real (46), ao contracenar com os realmente jovens em O diário de Tati (o que um bom pai não suporta por suas princesas?!).

Levy Fideles é candidato de si mesmo e mais ninguém; deve gostar muito de sua imagem no espelho.

Paulinho da Força se esforça, mas a referência à pequena bancada do PSOL foi infame. Lênin provocou risos no primeiro semestre de 1917, ao afirmar que seu minúsculo Partido Bolchevique estava pronto para assumir as responsabilidades do poder na Rússia. No semestre seguinte ele provou que estava.

Este é o verdadeiro palco para os candidatos
de esquerda: aqui Giannazi prevalece
Gabriel Chalita é o simpático galã com que o Lula sonhava ao impor a candidatura de um eterno coadjuvante (Haddad). Poderá vir a ser a cara nova para a qual o eleitorado se voltará, até porque seus passaralhos de professores no passado não pegam tão mal quanto as  ligações perigosas  e projetos disparatados do Russomanno.

Quanto ao Giannazi, tem trajetória irrepreensível, uma história edificante (quantos, hoje em dia, prefeririam ser expulsos do partido do que trair seus eleitores e suas convicções?) e representa aos que travamos o bom combate. 

Ele é o que o Serra um dia foi e os demais nunca foram nem serão: um personagem de envergadura histórica. 

Mas, ao que tudo indica, não conseguirá sobressair como é necessário  se continuar respeitando as regras de um jogo de cartas marcadas. 

Com suas promessas mirabolantes, imagens recauchutadas/maquiladas por marqueteiros, máquinas políticas poderosas e investimentos maciços em propaganda (uma frase imortal do Zé Celso Martinez Correa: "Os publicitários são filhos de Goebbels"), os candidatos do sistema conseguirão convencer o eleitorado de que serão melhores prefeitos, tendo como referencial o perfil desideologizado de prefeito que a indústria cultural martela dia e noite.

Eu tentaria me apresentar aos telespectadores como a alternativa: o prefeito dos humilhados, ofendidos, explorados e excluídos, em contraposição aos que não passam de candidatos... a humildes serviçais dos poderosos. 

Está na hora de ouvirmos a palavra revolução orgulhosamente proferida num desses debates de TV, como o objetivo final dos nossos esforços. Os ventos de mudança, aliás, sopram em nosso favor. 

Como disse um dos maiores heróis deste país que tão poucos produziu, cabe-nos ousar lutar, ousar vencer, assumindo o que temos de melhor e o que mais nos diferencia desses farsantes: somos revolucionários!

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

SERRA CONTINUA DESPENCANDO. QUANDO ATINGIRÁ O FUNDO DO POÇO?

Quando José Serra mal acabava de completar 70 anos, fui pesquisar algo sobre ele e a data de nascimento não me passou despercebida.

E daí? Que mal há em tornar-se septuagenário? Não foi Plínio de Arruda Sampaio, então com 80 anos, o candidato mais brilhante, inclusive em termos de agilidade mental, nos debates eleitorais da última eleição presidencial?

Bem, a resposta foi o fato de Plínio haver obtido apenas 0,87% dos votos válidos. Alguém duvida que, sendo 30 anos mais moço, aquele desempenho marcante lhe garantisse votação bem melhor?

O preconceito existe, sim. Curiosamente, o eleitor não dá muita importância à idade dos candidatos ao Legislativo, como se considerasse que vereadores, deputados e senadores não precisam ser dinâmicos. 

Mas, espera que os prefeitos, governadores e presidentes deem grandes demonstrações de gerenciamento, como se a presença física deles em qualquer palco alterasse em algo a tomada de providências. 

Ou seja, cabeça feita pela TV, os cidadãos comuns confundem administração com exibições pueris de autoridade. 

Um prefeito não precisa molhar o pé na enchente para saber o que tem de ordenar aos seus secretários. E, às vezes, tal demagogia sai pela culatra, como aprendeu Marta Suplicy, ao responder com maus modos a uma lojista desesperada. O episódio acabou sendo desastroso para sua imagem.

Mas, um homem de esquerda não tem o direito de, como as balzaquianas ávidas por desencalhar, ficar escondendo a idade e maquilando a aparência. 

Então, o condenável em Serra não era a idade, mas sim estar fazendo de tudo para que sua nova faixa etária não desse na vista.

Corri a trombeteá-la nos meus textos, pois sou um sexagenário brincalhão, fã dos Sobrinhos do Capitão quando criança e do Fradinho Baixinho na mocidade. Não desculpo no Serra ele haver se tornado tão diferente do presidente da UNE e exilado político que um dia ele foi.

Pior ainda, ele começou a campanha tentando aparentar uma jovialidade que não tem. Lembro-me de que, quando sabatinado pela Folha de S. Paulo há dois anos, entrou tão encolhido e amuado no palco que a platéia até ficou em dúvida se era ele  mesmo. Nunca pareceu tão Nosferatu...

Então, sua pedalada eleitoral foi ridícula e sua cara de pânico ao desequilibrar-se no skate, simplesmente desastrosa. Rendeu uma das fotos mais negativas da campanha, ao lado das imagens da lua de mel dos petistas com Maluf.

Agora, com Serra despencando nas pesquisas, os expertos botam a culpa na sua idade e na má campanha televisiva.

Pode ser. Mas,  será que escapa aos eleitores o fato de ele estar brigando com a idade? Não o estarão  punindo  por isto?

Enfim, é melhor perder eleições do que perder a dignidade. E, pelo jeito, Serra vai acabar sem ambas. Pobre coitado.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

A TRAGÉDIA FOI COLLOR; RUSSOMANNO PODERÁ SER A FARSA TRÁGICA

"Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa." (Karl Marx, O 18 de brumário de Louis Bonaparte)

Talvez estejamos prestes a presenciar uma farsa de consequências quase tão funestas quanto a tragédia da eleição de Fernando Collor para presidente da República. Então, vale a pena, primeiramente, recapitularmos o que aconteceu em 1989.

Naquele ano a Agência Estado incumbiu-me de entrevistar os candidatos a presidente da República bem no comecinho da campanha. Fernando Collor aparecia em segundo lugar numa rara pesquisa de intenção de votos feita naquele mês de abril. Nenhum analista político importante apostava um centavo nas suas chances contra Mário Covas, Leonel Brizola, Paulo Maluf, Ulysses Guimarães, etc. 

O consenso era de que, quando a campanha esquentasse, o autoproclamado  caçador de marajás, conhecido apenas no Nordeste, seria desalojado das primeiras posições pelos candidatos que marcavam presença no noticiário político nacional há décadas.

Fui, talvez, o primeiro a desconfiar que Collor não seria  fogo de palha. Era imenso o desencanto com o desgoverno de José Sarney e seus recordes inflacionários que convulsionavam a vida do cidadão comum; e a rejeição se estendia aos outros políticos mais notórios. 

O eleitorado queria uma  nova cara  e Collor atendia a tal expectativa: era desconhecido, carismático e apresentava-se como o guerreiro que teria confrontado com êxito as velhas oligarquias nordestinas. 

E, se a  panca de valente  lhe servia como trunfo em relação ao povão, suas promessas de modernização tecnológica (a Lei de Informática e outros protecionismos travavam nosso desenvolvimento econômico) e  estado mínimo  seduziam parte da classe média.

Os meses foram passando e, ao invés de Collor definhar, passou a ser o líder das pesquisas.

Mesmo assim, os realmente poderosos tentatam alavancar candidatos que lhes seriam mais dóceis, como Aureliano Chaves, Guilherme Afif Domingos e até Mário Covas. Tinham um certo receio daquela incógnita que vinha da periferia do sistema e queria impor-se a ele. Temiam, com razão, que se revelasse um novo Jânio Quadros, imprevisível e destrambelhado.

Mas, nenhuma das opções tentadas colou. A grande imprensa passou, p. ex., umas duas semanas privilegiando um Afif Domingos, com enormes entrevistas nos jornais, exposição privilegiada na TV, matérias de capa nas revistas; era o  candidato do momento. Mas, quando as pesquisas não revelaram um crescimento significativo, direcionou seus holofotes para Covas, igualmente em vão. Então, curvando-se à evidência dos dados, em agosto o sistema optou por Collor como seu paladino para derrotar a esquerda.

Na outra trincheira também uma  nova cara  se impôs. O fantasma que assombrava os poderosos desde que ficaram evidenciados o fracasso e a exaustão da ditadura militar era Brizola. Foi por temerem sua eleição, dada como certa, que manobraram para impedir a aprovação da emenda Dante de Oliveira, favorecendo, em seguida, a eleição indireta de Tancredo Neves (os parlamentares da bancada governista liderados por José Sarney foram, e não por acaso, o fiel da balança nas duas votações, daí ele ser recompensado com a vice-Presidência na  Nova República  que já nasceu velha...).

Mas, no frigir dos ovos, foi Luiz Inácio Lula da Silva quem conquistou a vaga para o 2º turno, ao obter 454 mil votos mais do que Brizola (em termos percentuais, o primeiro ficou com 16,08% e o segundo com 15,45%).

Depois de apostar suas fichas em Collor já no 1º turno, levando-o a obter sozinho tantos votos quanto Covas, Maluf, Afif, Ulysses Guimarães e Aureliano Chaves somados, a direita jogou mais pesado ainda no 2º turno, garantindo-lhe a vitória... e condenando o Brasil à turbulência collorida e à mediocridade de Itamar Franco.

O CAVALO DE TRÓIA DE EDIR MACEDO

Há óbvios pontos de contato com a eleição paulistana de 2012, como a saturação com o domínio muito prolongado e cada vez mais estéril dos tucanos e seus aliados no estado e na cidade de São Paulo, bem como o desalento do cidadão comum com a política e os políticos (mais ainda porque a campanha começa quando o principal assunto do noticiário é o julgamento do mensalão).

Então, como Collor em 1989, a  nova cara  (Celso Russomanno) surpreendeu nas pesquisas iniciais ao aparecer na segunda colocação e mais ainda agora, ao assumir a ponta. Quem dava como favas contadas que ele seria  fogo de palha  começa a ficar com a pulga atrás da orelha.

Uma diferença importante é a que, por enquanto, não há um espectro da esquerda que assuste tanto o sistema quanto Brizola e Lula em 1989. O único que poderá desempenhar tal papel é Carlos Giannazi, se deslanchar.

Mas, a persistir o esvaziamento de José Serra, poderemos chegar a uma situação em que a disputa se decida entre Fernando Haddad e Celso Russomanno.

Como se percebe um nítido empenho dos poderosos e sua indústria cultural em esvaziarem Lula, favorecendo uma candidatura de Dilma Rousseff à reeleição (para começarem a torpedeá-la no dia seguinte à sua homologação pelo PT...), podemos temer, sim, que eles pavimentem o terreno para Russomanno chegar à Prefeitura. A derrota do seu  bebê de proveta  seria o golpe de misericórdia nas aspirações presidenciais de Lula.

Mas, se Russomanno repete Collor quanto a ser uma  nova cara  e ter dotes de bom comunicador, não é messiânico nem arrojado. Trata-se de um oportunista de voos curtos, ligações/episódios nebulosos (ver aqui) e um histórico legislativo de projetos disparatados (ver aqui).

Em termos pessoais, dele só há a temermos que venha a ser outro prefeito lacaio do grande capital e patético como Gilberto Kassab.

Mas, sua eleição aumentaria em muito o poder de fogo político da Igreja Universal do Reino de Deus e outras  empresas  dedicadas à exploração da fé.

O papel extremamente nocivo dessas bancadas evangélicas devotas do bezerro de ouro evidencia-se cada vez mais: satanização dos cultos afro-brasileiros, perseguição aos gays, campanhas extremadas e obscurantistas contra o aborto, reacionarismo (foram elas, p. ex., que condicionaram a aprovação do projeto da Comissão da Verdade à não participação de vítimas da ditadura)... e, claro, fisiologismo escancarado.  

Então, a eleição de Russomanno não seria, talvez, uma tragédia. Mas, leva todo jeito de, lembrando uma velha comédia macabra com Boris Karloff e Vicent Price, vir a tornar-se uma  farsa trágica.