Fui ativista estudantil (1967/68). Militante clandestino (1969/70). Preso político (1970/71). Tenho travado o bom combate, lutando por um Brasil mais justo, defendendo os direitos humanos, combatendo o autoritarismo.

Sou jornalista desde 1972. Crítico de música e de cinema. Cronista. Poeta. Escritor. Blogueiro.

Tentei e não consegui eleger-me vereador em São Paulo. Mas, orgulho-me de ter feito uma campanha fiel aos objetivos nortearam toda a minha vida adulta: a construção de uma sociedade igualitária e livre, tendo como prioridades máximas o bem comum e a felicidade dos seres humanos.

Em que a exploração do homem pelo homem seja substituída pela cooperação solidária do homem com os outros homens. Em que sejam finalmente concretizados os ideais mais generosos e nobres que a humanidade vem acalentando através dos tempos: justiça social e liberdade.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

UM APOIO DO QUAL EU E O GIANNAZI MUITO NOS ORGULHAMOS: O DE CARLOS LUNGARZO

POLÍTICA E DIREITOS HUMANOS

Carlos A. Lungarzo (*)

O ativismo em Direitos Humanos é uma área da atividade moral e social dos que o praticam, e sua doutrina uma subteoria da sociologia e a ética em sentido acadêmico, mas não é uma área da política, entendida como praxe, nem da "ciência" política, quando esta é entidade como teoria.

Entretanto, apesar de ser coisas diferentes, têm um núcleo comum. Parte desse núcleo é negativo. Lutar pelos direitos humanos significa combater as políticas que os obstruem, o que significa estar contra mais ou menos os 80% das posições que controlam o poder no planeta. Por outro lado, significa apoiar os movimentos sociais, ou inclusive alguns governos que zelam por esses direitos.

Ou seja, embora os direitos humanos pareçam incompatíveis com a política prática (que procura a dominação, seja a nível global ou nível nacional), os DH interessam na atividade política por dois motivos:

É impossível uma sociedade verdadeira civilizada sem uma organização política que torne os direitos humanos uma prioridade, acima de outros atributos, sejam soberania, independência, riqueza e até liberdade. DH exige mais que a democracia, como o prova a existência de 102 países da comunidade internacional, nos quais se praticam graves violações aos DH, e dos quais pelo menos 2/3 são democráticos. 

Duas vezes premiê da Suécia, Olof Palme foi
assassinado quando saía de um cinema, em  1986.
O país considerado às vezes como paradigma de democracia, os EEUU, mantém a pena de morte, tortura a população de outros países e, com sua atitude belicista, dá pretexto a outras países para manter seus exércitos.

Por outro lado, quando se respeitam os DH, é possível embora não seja fácil, aspirar a um socialismo real e humano.

Os ativistas de DH temos especial desconforto com a  realpolitk. Embora muitas vezes devemos trabalhar em harmonia com os governos para preservar vidas de pessoas ou de grupos e culturas, sabemos que, nesse 80% ou mais dos casos que mencionei, os DH são apenas uma cortina de fumaça para atingir o poder e ainda simular altruísmo.

Em muitos países, na década de 1980, foram criadas secretarias de DH com a principal finalidade de impedir o avanço dos militantes independentes. Como dizia a nobreza siciliano: "Vamos mudar a aparência de alguma coisa, para que nosso poder continue o mesmo".

Mas, houve e há exceções. Não deve esquecer-se que a Suécia que hoje persegue Julian Assange, já foi governada pelo socialismo de Olof Palme, que foi o modelo mais próximo de sociedade perfeita. O Chile que hoje é um balcão de negócios da burguesia corrupta, teve 3 anos da primavera do socialismo da Unidade Popular. E há outros exemplos, inclusive hoje.

Salvador Allende, o  companheiro presidente,
morreu resistindo ao  pinochetazzo, em 1973
Por isso, não acredito incorrer em nenhuma contradição ao difundir o manifesto de Celso Lungaretti [este aqui], pois, como ele disse, é outro tipo de política. Da mesma maneira, é o caso do candidato a prefeito pela mesma chapa Carlos Giannazi, uma pessoa que coloca a ênfase em praticamente a única ativdade humana que pode derrotar a violência do dinheiro, as armas, e as crendices: a educação. Ter um verdadeiro educador como líder é um luxo para qualquer sociedade.

A filosofia dos DH não produz, quando tomada seriamente, nem prestígio, nem influências, nem sossego. Todo o contrário, é uma atividade perigosa, onde se ganham os mais poderosos e cruéis inimigos.

Por isso, normalmente os ativistas de DH não militam em partidos políticos, onde o objetivo, mesmo nos casos de honestidade pública, é o poder e não a igualdade.

Pessoalmente, creio que o Partido Socialista e Liberdade, como outros pequenos partidos de esquerda do Brasil, ou de pequenos grupos de esquerda que ficam no PT ainda, é diferente da  realpolitk  que conhecemos. Mesmo assim, não estou assumindo um compromisso com ele, em seu conjunto, porque tenho críticas em algumas políticas.

Mas desejo sim manifestar meu apoio a Giannazi e Lungaretti, e a todos os que apóiam uma linha similar ou fraterna com eles.

* professor da Unicamp, defensor histórico dos DH, foi um dos principais defensores do escritor italiano Cesare Battisti, na luta vitoriosa para evitar sua extradição.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

UMA PALAVRA DE ORDEM QUE ME INSPIRA: "É PROIBIDO PROIBIR!"

O bizarro episódio em que uma integrante do Conselho Nacional de Educação afirmou existir racismo na obra de Monteiro Lobato, não se esgota na rejeição do seu parecer por parte do ministro Fernando Haddad. É hora de nos defrontarmos com o monstro, e não apenas com a mais chocante de suas monstruosidades.

O que havia para se dizer sobre o  politicamente correto, Karl Marx já disse, em 1845, nas Teses sobre Feuerbach:
"A doutrina materialista de que os seres humanos são produtos das circunstâncias e da educação, de que seres humanos transformados são, portanto, produtos de outras circunstâncias e de uma educação mudada, esquece que as circunstâncias são transformadas precisamente pelos seres humanos e que o educador tem ele próprio de ser educado. Ela acaba, por isso, necessariamente, por separar a sociedade em duas partes, uma das quais fica elevada acima da sociedade.

A coincidência do mudar das circunstâncias e da atividade humana só pode ser tomada e racionalmente entendida como praxis revolucionária." (3ª tese)

"Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo." (11ª tese)
Ou seja, os educadores que se arrogam o direito de decidir o que crianças (ou a sociedade como um todo) podem ou não ler, e com que ressalvas lhes devem ser apresentadas tais leituras, têm, eles próprios, de ser educados.

As mudanças das circunstâncias e da atividade humana só se dão por meio da prática revolucionária, não de uma educação mudada (ou expurgada, censurada, castrada, mutilada, maquilada, engessada, etc.).

Pois não basta a adoção de outras palavras para eliminar-se a carga de preconceitos com que as pessoas as impregnaram, nem fazer triagem de obras artísticas para extirparem-se os comportamentos condenáveis nelas retratados.

Somente livrando a humanidade do pesadelo capitalista conseguiremos dar um fim a todas as formas de discriminação, pois uma das molas-mestras da sociedade atual é exatamente a busca da diferenciação, do privilégio, do status, da superioridade.

Enquanto os seres humanos forem compelidos a lutarem com todas as suas forças para se colocarem acima de outros seres humanos, será ilusório pretendermos tangê-los ao respeito mútuo por meio de besteirinhas cosméticas.

É desprezando os iguais que eles adquirem forças para a luta insana que travam, pisando até no pescoço da mãe para alçarem-se a outro patamar da hierarquia social.

Então, a verdadeira tarefa continua sendo a transformação do mundo, para que não haja mais hierarquia e sim a priorização do bem comum, com todos contribuindo no limite de suas possibilidades para que sejam atendidas as necessidades de todos.

Enquanto nos iludirmos com esses pequenos retoques na fachada do edifício capitalista, estaremos perdendo tempo: seus alicerces estão podres, para além de qualquer restauração.

Ou o demolimos e tratamos de erguer novo edifício em bases sólidas, ou ele ruirá sobre nós.

É simples assim. (texto publicado em 09/11/2010 no blogue Náufrago da Utopia)

domingo, 5 de agosto de 2012

UMA MISSÃO QUE ASSUMO: DEFENDER OS INJUSTIÇADOS PELOS PODEROSOS

Jean Valjean é um personagem lapidar da literatura universal, extraído da vida pela pena poderosa de Victor Hugo e a ela sempre voltando, pois a era capitalista se caracteriza pelos mais cruéis abusos e pelas injustiças mais chocantes.

Para as novas gerações, vítimas da faina incessante da indústria cultural no sentido de obnubilar as consciências, explico: personagem principal da obra-prima Os Miseráveis, Valjean perde os pais ainda criança, é criado pela irmã mais velha e, quando esta enviuva com sete filhos para criar, vai à luta para sustentar sua família.

Num inverno em que não consegue emprego, o desespero o leva a roubar um pão.

Preso e condenado a cinco anos de trabalhos forçados, acaba cumprindo 19, em função das várias tentativas de fuga.

Magníficos atores, como Friedric March, Jean Gabin, Gerard Depardieu e Liam Neeson, interpretaram Valjean nas versões cinematográficas de Os Miseráveis -- que somam, pelo menos, 12.

Para mim, ele sempre terá a forte imagem de Lino Ventura (foto acima), protagonista da minissérie de TV dirigida em 1982 por Robert Hossein e depois condensada para o cinema. Talvez porque este carismático ator italiano, mais lembrado por suas interpretações de gangstêres e delegados na grande fase dos filmes policiais franceses (anos 60 e 70), fosse parecidíssimo com um tio-avô meu...

Os pobretões que revivem o drama de Valjean por caírem em armadilhas do destino são incontáveis -- porque o capitalismo, no que tem de essencial, em nada melhorou desde o século 19 nem será redimido jamais; vai continuar tangendo o homem a ser o lobo do homem, enquanto perdurar.

Valjean aparece no noticiário desta 2ª feira (9) em versão feminina: Juíza manda prender desempregada, mãe de 10 filhos, por calote de fiança:
"Uma diarista desempregada, mãe de dez filhos, moradora de uma favela em Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo, corre o risco de ser presa a qualquer momento se não pagar R$ 300 à Justiça.
A cobrança se refere à fiança por ela ter sido presa em flagrante e depois libertada ao tentar furtar roupas de um supermercado. O crime aconteceu no dia 30 de julho.

Claudinéia Freitas Santos, 38, foi até um supermercado Carrefour e tentou furtar dez bermudas e dois sapatos para os filhos. Um segurança a flagrou e chamou a polícia. Acabou presa em flagrante".
É óbvio que casos assim pipocarão enquanto estivermos submetidos a uma forma de organização econômica-política-social que privilegia a ganância, o privilégio e a competição autofágica entre os homens, ao invés do atendimento das necessidades humanas, da igualdade de oportunidades e da solidariedade universal.

Mesmo assim, vale sempre mobilizarmo-nos para que as ocorrências escabrosas noticiadas tenham um desfecho justo -- pois, além de evitar-se o pior para as vítimas em questão, o exemplo poderá beneficiar a outros(as) coitadezas, em circunstâncias semelhantes.

Então, como o Carrefour não tem ombudsman, recomendo a todos que mandem mensagens, pedindo à empresa para retirar a queixa contra Claudinéia e ressarci-la pelos transtornos causados à sua existência sofrida, para as profissionais responsáveis pela comunicação empresarial em São Paulo: julianasouza@a4com.com.br e juliana_machado@carrefour.com (texto publicado em 09/08/2010 no blogue Náufrago da Utopia)

UMA MISSÃO QUE ASSUMO: LUTAR CONTRA OS PRECONCEITOS

"Joaquim José,
que também é
da Silva Xavier,
queria ser dono do mundo
e se elegeu Pedro II.
Das estradas de Minas
seguiu pra São Paulo
e falou com Anchieta,
o vigário dos índios.
Aliou-se a Dom Pedro
e acabou com a falseta:
da união deles dois
ficou resolvida a questão
e foi proclamada
a escravidão"
(Sérgio Porto, "Samba 
do crioulo doido")

Andamos para trás: enquanto a bancada evangélica no Congresso tenta obrigar os psicólogos a tratarem o homossexualismo como uma doença, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil vai distribuir agora aqueles panfletos contra o descriminalização do aborto apreendidos às vésperas do 2º turno da eleição presidencial de 2010 e recentemente liberados pela Justiça.

Calcula-se que tenham sido confiscados entre 1 milhão e 2 milhões desses papeluchos afrontando a separação entre a Igreja e o Estado, ao reforçarem a imposição de preconceitos religiosos a toda a população, ateus e agnósticos inclusos.

E, claro, tal decisão judicial torna difícil evitar que sejam feitas e espalhadas novas impressões da pregação medievalista.

Pai de duas filhas legítimas e uma adotada, desaconselharei sempre o aborto a quem pedir minha opinião.

Mas, vou defender com unhas e dentes o direito de os responsáveis pela gravidez --e apenas eles!!!-- decidirem se podem e querem levá-la adiante.

Não vejo vantagem nenhuma e muitas desvantagens em, por meio da lei ou de intimidações de ordem moral, coagirmos pessoas a colocarem crianças indesejadas no mundo. Acabam sendo uma carga para os pais e depois para a sociedade, pois a falta de amor no início da vida tende a torná-las maus seres humanos.

Não é assunto no qual o Estado e os religiosos devam meter o nariz, salvo para garantiram a segurança da mulher, evitando que aborte quando já não é mais possível fazê-lo sem colocar sua saúde e sua vida em risco.

De resto, a perspectiva de termos militantes católicos distribuindo esses folhetos no período eleitoral me deperta péssimas lembranças:
  • a participação da Igreja Católica na preparação do cenário para a quartelada de 1964 (com as famosas marchas de carolas, dondocas e reaças) e a convivência harmoniosa de D. Agnelo Rossi com a ditadura militar quando ele era arcebismo de São Paulo, entre 1964 e 1970; e
  • as ridículas campanhas de rua da Tradição, Família e Propriedade na década de 1960, colhendo assinaturas contra o divórcio e fazendo panfletagens contra o  arcebispo vermelho, D. Helder Câmara.
Ou seja, tal recaída conservadora/reacionária por parte de católicos e a escolha dos gays pelos evangélicos como  espantalhos da vez  (seguindo os passos de Hitler, que satanizou os judeus para imantar as fileiras nazistas) nos fazem retroceder mais de quatro décadas.

Pelo andar da carruagem, ou reagimos de imediato e com firmeza ao retrocesso ou acabaremos proclamando a escravidão, como ironizou Sérgio Porto no seu genial "Samba do crioulo doido".

Chega de tergiversações eleitoreiras e de cumplicidade com o atraso! (texto publicado em 10/03/2011 no blogue Náufrago da Utopia)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

UMA CHAMA QUE TENTO MANTER VIVA: O ROMANTISMO REVOLUCIONÁRIO

AOS QUE VIERAM DEPOIS DE NÓS


Jovens companheiros,

recebam o abraço de um náufrago da utopia de 1968, quando os melhores brasileiros, muitos deles tão novos como vocês, percorreram esses mesmos caminhos de idealismo e esperança, sem conseguirem levar a bom termo a jornada.

Eram tempos sem sol, em que só tinham testas sem rugas os indiferentes e só se davam ao luxo de rir aqueles que ainda não haviam recebido a terrível notícia.

Num país de tão gritante desigualdade social, eu e meus amigos chegávamos a ser tidos como privilegiados. E, tanto quanto a vocês, os reacionários empedernidos e os eternos conformistas nos diziam: “Come e bebe! Fica feliz por teres o que tens!”.

Da mesma forma que vocês agora, um dia percebemos que nada do que fazíamos nos dava o direito de comer quando tínhamos fome. Por acaso, estávamos sendo poupados – ao preço de silenciarmos sobre tanta injustiça.

E cada um de nós se perguntou: “Como é que eu posso comer e beber, se a comida que eu como, eu tiro a quem tem fome? Se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede?”.

Escolhemos o caminho árduo dos que têm espírito solidário e senso de justiça.

Poderíamos, é claro, nos manter afastados dos problemas do mundo e sem medo passarmos o tempo que se tem para viver na terra. Mas, não conseguíamos agir assim. Viéramos para o convívio dos homens no tempo da revolta e nos revoltamos ao lado deles.

Foi uma luta desigual e trágica. Muitos daqueles com quem contávamos preferiram a “sabedoria” de seguir seu caminho sem violência, não satisfazendo seus melhores anseios, mas esquecendo-os. E se tornaram inacessíveis aos amigos que se encontravam necessitados.

No final, desesperados, trocávamos mais de refúgios do que de sapatos, pois só havia injustiça e não havia mais revolta.

Os que sobrevivemos, ainda amargamos a incompreensão dos que se puseram a falar sobre nossas fraquezas, sem pensarem nos tempos sem sol de que tiveram a sorte de escapar.

E assim transcorreram anos e décadas. Só nos restava confiar em que o ódio contra a vilania acabaria endurecendo novos rostos e que a cólera contra a injustiça um dia ainda faria outras vozes ficarem roucas.

A espera chegou ao fim. Saudamos esse movimento que vocês iniciaram e estão sustentando contra todas as incompreensões e calúnias, como o renascer da nossa utopia.

Nós, que tentamos e não conseguimos preparar o terreno para a amizade, temos agora a certeza de que a luta prosseguirá. E a esperança de que vocês vejam chegar o tempo em que o homem será, para sempre, amigo do homem. (texto publicado em 05/06/2007 no blogue Celso Lungaretti-O Rebate, logo após o desfecho vitorioso da ocupação da reitoria da USP, por meio da qual os universitários conseguiram derrubar quatro decretos autoritários do então governador José Serra)

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

SEM MEDO DE SER SINCERO

Enquanto a campanha eleitoral não esquenta, o que deverá ocorrer a partir do início do horário gratuito em rádio e TV, venho postando aqui alguns dos meus textos mais emblemáticos --aqueles que, para além do episódio específico que os gerou, definem meus valores e visão de mundo.

Não pretendo conquistar eleitores prometendo projetos que o vereador de uma banca minoritária (o PSOL desta vez conseguirá uma representação na Câmara, com certeza, mas só por milagre vai ser uma suficiente para garantir-lhe maioria...) não consegue viabilizar por si só, ficando na dependência de composições com outras forças --e eu, por convicções e princípios, jamais entrarei nos  toma-lá-dá-cá  espúrios da politicalha.

Então, o meu perfil é o que se ressalta nesses textos sobre os ideais que me inspiram, as missões que assumo, os mitos que cultuo, os exemplos que sigo. E meu compromisso é honrá-los em cada atitude e em cada palavra, ao longo do meu eventual mandato. Creio ser muito, muitíssimo mais do que a maioria promete...

E creio também já ter dado demonstração de que consigo ser, como poucos, a mosca na sopa ou a pedra no sapato dos poderosos: 
  • ajudando a salvar Battisti dos inquisidores de dois continentes; 
  • obrigando a grande mídia várias vezes a retratar-se ou a abrir espaço (que não queria conceder) para o  outro lado
  • dando o nome a certos bois que até abrem processos contra quem os designa como tais; 
  • forçando o Governo paulista a fazer a PM desistir de seu culto explícito à ditadura militar (o implícito, infelizmente, perdura, como se constatou nas duas últimas execuções maquiladas em  resistência à prisão  que chocaram o País inteiro).
Adiante, se receber doações eleitorais, produzirei folhetos caseiros para os distribuir eu mesmo (junto com quem porventura queira dividir a tarefa comigo). Caso contrário, farei campanha só na internet. 

Mas, passando por dificuldades financeiras neste bizarro país em que mandados de segurança levam cinco ano e meio inconclusos, não tirarei um centavo do orçamento familiar para colocar na campanha. Meus dependentes vêm sempre em primeiro lugar.

O MENSALÃO

Sobre o grande assunto do momento para a mídia, o julgamento do  mensalão, já me manifestei no artigo apropriadamente intitulado Pra não dizer que não falei do mensalão, que está no meu blogue de assuntos gerais, o Náufrago da Utopia (ver aqui).

Eis o cerne da questão:
"O grande erro do PT foi o de, traindo seus compromissos e sua história, haver incidido nas práticas que antes execrava: comprou o apoio de parlamentares fisiológicos com recursos públicos, pois acreditou que só assim conseguiria ter seus projetos mais importantes aprovados no verdadeiro balcão de trocas em que se transformou o Congresso.
A queda dos anjos provocou orgasmos de júbilo naqueles que sempre foram demônios.

Então, tendo vindo à tona o  mensalão, a apuração dessas práticas corriqueiras da política crapulosa foi feita, desta vez, com empenho obsessivo, inaudito; nunca havia sido colocada tamanha profusão de holofotes sobre os muitos esquemas IDÊNTICOS denunciados, só que referentes aos partidos mais à direita.

Então, no que diz respeito a este processo em particular, a condenação procederá.

Mas, vai implicar o estupro de um princípio fundamental das democracias: a igualdade de todos perante a lei.

Pois, pelos mesmíssimos motivos, todos os outros partidos que presidiram o Brasil desde a redemocratização deveriam ser também condenados".
Quem conhece os valores da esquerda da minha geração (a de 1968) sabe que sempre nos vimos como aprendizes do  homem novo, que estaríamos sendo julgados a cada momento pelo cidadão comum:  este acreditaria ou não em nossos ideais, em grande parte, pela imagem que deles déssemos como pessoas. Vai daí que procurávamos, a todo custo, corresponder a tudo aquilo que professávamos.

Não mudei. Tanto que, embora não seja  religioso, cito amiúde o “que a vossa palavra seja sim, sim, não, não, pois o que passar disso será de procedência malígna”, do São Mateus (5:37).

Aliás, permanecendo no campo místico, considero-me uma pessoa imune a tentações do tipo daquelas a que muitos políticos sucumbem: passei a vida contentando-me em obter apenas as quantias de que realmente necessitava. Em vez de fazer horas extras ou pegar  frilas  para fazer pé-de-meia, optei por viver a vida e travar minhas lutas.

Até porque sabia ser capaz de sobreviver com bem pouco, devido à minha vivência nas comunidades alternativas dos anos 70. Durante a terrível crise financeira pela qual passei em 2004/5, p. ex., ainda era capaz de caminhar mais de 20 quilômetros por não ter com que pagar ônibus.

O que bagunçou meus esquemas mentais foi a necessidade que senti, ao completar 50 anos, de realizar um velho sonho que deixara pra trás: o de ser pai biológico, e não apenas adotivo. A responsabilidade então assumida com as duas filhas que acabei tendo passou a preponderar sobre todo o mais.

O que não me torna suscetível de ser corrompido como vereador: os vencimentos normais dos representantes do povo na Câmara (quantos realmente o são?) me parecem astronômicos; nem saberia como os gastar, de tanto que excedem minhas necessidades e as dos meus familiares.

Sou revolucionário. Para mim, não há dinheiro no mundo que valha a imagem que deixarei na História e o exemplo que legarei aos que virão depois de mim.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

UMA MISSÃO QUE ASSUMO: LANÇAR UMA PONTE ENTRE OS IDEAIS DE 1968 E A CONTESTAÇÃO ATUAL

A última segunda-feira de maio é ensolarada, uma exceção no invernal outono paulistano. As pessoas ao redor da reitoria da Universidade de São Paulo, ocupada pelos estudantes desde o dia 3, mostram aquela animação habitual de quem reencontra o calor e o céu azul, após vários dias frios e cinzentos.

Conversam, brincam, confraternizam. Há líderes de servidores públicos se revezando num alto-falante para instruir/entreter quem chegou adiantado à reunião da categoria que terá lugar ali mesmo, ao ar livre. Ninguém parece preocupar-se com uma invasão da Polícia Militar, para cumprir o mandado de reintegração de posse concedido pela Justiça.

Uma barricada de pneus diante da entrada é a vitrine da ocupação. De que realmente servirá, caso cheguem brutamontes bem treinados e equipados, que têm a violência como realidade cotidiana? Quase nada. Mas, os símbolos têm papel importante nas batalhas em que o grande objetivo estratégico é a conquista de corações e mentes.

Diante da única porta de entrada, alguns estudantes do esquema de segurança fazem a triagem dos visitantes. Basta ter uma carteirinha de aluno ou professor da USP para entrar sem problemas. Como não sou uma coisa nem outra, levo alguns minutos para convencê-los de que não vim brincar de 007.

Como credencial, apresento meu livro Náufrago da Utopia, que por acaso trago comigo. Agrada-lhes o caderno iconográfico, com muitas fotos do movimento estudantil de 1968. Meio convencidos de minhas boas intenções, deixam que eu vá parlamentar com a  Comissão de Comunicação  (ou rótulo que o valha). Acompanhado, por enquanto.

Lá decidem que eu posso circular à vontade pela reitoria ocupada, liberando meu cicerone/vigia para outras tarefas. Uns 15 estudantes rodeiam meia dúzia de computadores, uns digitando e os outros palpitando.

Cuidam de manter o blogue da ocupação no ar, de selecionar e imprimir textos que serão expostos nos quadros de avisos e paredes. E também de mandar mensagens de esclarecimento aos jornalistas que falam mal da ocupação. [Como se isso adiantasse. Tirando honrosas exceções, a imprensa se colocou contra os estudantes, às vezes dissimuladamente, outras da forma mais panfletária e caluniosa, como fez a Veja São Paulo, que os acusou de “vândalos”, “baderneiros” e “arruaceiros”.]

A diferença mais marcante em relação às ocupações antigas é, exatamente, o esquema de comunicação sofisticado da atual, incluindo TV por Internet e   rádio livre. De resto, sinto-me como se tivesse entrado num túnel do tempo e desembarcado naquele mês de julho de 1968 em que a Faculdade de Filosofia da rua Maria Antônia (SP) esteve ocupada para servir como QG das iniciativas em apoio da Greve de Osasco, lançando a nova onda que (como agora) rapidamente se alastrou.

Os mesmos colchonetes espalhados por um salão em que repousam alguns sentinelas cansados, após a vigília da madrugada – período mais propício para uma operação policial, exigindo, portanto, cuidados redobrados (e muita disposição para enfrentar o frio).

Os mesmos jovens com roupas coloridas e brilho no olhar, convencidos de que estão fazendo História, embora alguns ainda sejam imberbes.

Os mesmos mosaicos de textos e imagens compondo um visual agradavelmente anárquico. [O pôster mais hilário é o do governador José Serra fazendo mira com um fuzil e os dizeres “José Serra, nada mais nos U.N.E.”. Que ingenuidade, deixar-se fotografar em pose tão incompatível com sua aura e seu passado!]

Sou capaz de apostar que, se fizesse uma  excursão  como a que estou fazendo, a reitorazinha teria chiliques, pois, à  anarquia criativa, deve preferir os ambientes burocratizados, assépticos e sem vida, a julgar pelo que revela nas entrevistas: faz musculação, esteira e escova nos cabelos, usa terninhos de estilo clássico, quer corrigir pálpebras e bochechas com cirurgia plástica.

Deuses, o que faz uma farmacêutica numa posição dessas? Serão esses os temas que uma reitora deve tratar na imprensa, quando sua universidade vive a maior crise das últimas décadas? [De quebra, é uma ingênua que, a mando ou com autorização do governador, pede reintegração de posse e depois paga o mico de ver o mandado judicial descumprido, já que os estudantes não engoliram o blefe e Serra teme as conseqüências desse presumível confronto sobre suas ambições políticas.]

Apesar de toda a grita demagógica dos direitistas empedernidos e dos cristãos-novos do reacionarismo, não há sinais visíveis de depredação ou vandalismo. Aliás, os estudantes criaram um sem-número de comissões, para cuidar de cada detalhe  administrativo  da ocupação, zelando pelo patrimônio público. Até permitem que os faxineiros continuem cumprindo sua função de manter limpas as várias dependências, indiferentes ao “perigo” de que o  inimigo  possa infiltrar-se camuflado com macacões.

O que não funciona mesmo são os caixas eletrônicos de bancos, nos quais foram colados avisos de “sem dinheiro”. Uma fração infinitesimal da usura consentida pela Justiça e abençoada pelo sistema foi detida. Vem-me à lembrança uma música de Sérgio Ricardo, ídolo dos universitários responsáveis pelas ocupações de quatro décadas atrás: “Os bancos e caixas-fortes/ que eram rocha, se quebraram/ e um rio de dinheiro correu”.

À saída, lanço um último olhar a esses jovens belos, brilhantes e idealistas, aparentemente tão frágeis, mas dispostos a enfrentar a tropa de choque da PM, se isso for necessário. Espero, torço para que não venha a ser.

Volto para o mundo real da desigualdade, da competição e da ganância, depois de um breve reencontro com o faz-de-conta revolucionário. Ciente de que há um longo caminho a percorrer até que os voluntários da utopia voltem a ser em número suficiente para tentarem ir além do faz-de-conta.

E, mesmo assim, esperançoso, pois um passo importante está sendo dado, com esse renascer do movimento estudantil que ora se delineia. É tudo de que precisamos, a renovação e oxigenação da esquerda, depois de tantas desilusões e defecções.

As pedras voltam a rolar. (texto publicado em 31/05/2007 no blogue Celso Lungaretti-O Rebate)--e, no início de junho, Serra capitulou, anunciando que reveria seus quatro decretos autoritários).